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Vale da Vigilância – Cap 5. Vigilância S.A. (5)

O Governo da Google

Pouco depois de Sergey Brin e Larry Page terem tornada a Google uma corporação, começaram a ver sua missão em termos maiores. Eles não estavam apenas construindo um mecanismo de pesquisa ou um negócio de publicidade direcionada. Eles estavam organizando as informações do mundo para torná-las acessíveis e úteis para todos. Foi uma visão que também abrangeu o Pentágono.

Mesmo quando a Google cresceu para dominar a Internet do consumidor, surgiu um segundo lado da empresa, que raramente recebia muita atenção: a Google, a contratada pelo governo. Acontece que as mesmas plataformas e serviços que a Google implementa para monitorar a vida das pessoas e coletar seus dados podem ser usados a serviço de grandes áreas do governo dos EUA, incluindo militares, agências de espionagem, departamentos de polícia e escolas. A chave para essa transformação foi uma pequena start-up agora conhecida como Google Earth.

Em 2003, uma empresa de São Francisco chamada Keyhole Incorporated estava nas últimas. Tendo recebido o mesmo nome que o programa secreto de espiões por satélite “Keyhole” da CIA dos anos 1960, a empresa havia sido lançada dois anos antes como derivada de um equipamento de videogame. Seu CEO, John Hanke, veio do Texas e trabalhou por um tempo na Embaixada dos EUA em Mianmar. Ele disse aos jornalistas que a inspiração para sua empresa veio de Snow Crash, de Neal Stephenson, um romance de ficção científica em que o herói utiliza um programa criado pela “Central Intelligence Corporation” chamado Planet Earth, uma realidade virtual projetada para “rastrear todas as informações espaciais que possui – todos os mapas, dados meteorológicos, planos arquitetônicos e equipamentos de vigilância por satélite. ”95

A vida imitaria a arte.96

A Keyhole derivou da tecnologia de videogame, mas a implantou no mundo real, criando um programa que costurava imagens de satélite e fotografias aéreas em modelos tridimensionais de computador da Terra que poderiam ser explorados como se estivessem em um mundo de realidade virtual. Era um produto inovador que permitia a qualquer pessoa com conexão à Internet voar virtualmente sobre qualquer lugar do mundo. O único problema da Keyhole foi uma questão de assincronia. Ela foi lançado no momento em que a bolha pontocom explodiu no rosto do Vale do Silício. O financiamento secou e a Keyhole se viu lutando para sobreviver.97 Por sorte, a empresa foi salva a tempo pela própria entidade que a inspirou: a Agência Central de Inteligência (CIA).

Em 1999, no auge do boom das pontocom, a CIA lançou o In-Q-Tel, um fundo de capital de risco do Vale do Silício cuja missão era investir em start-ups alinhadas às necessidades de inteligência da agência.98 A Keyhole parecia se encaixar perfeitamente.99

Não se conhece a quantia que a CIA investiu na Keyhole; o número exato permanece classificado. O investimento foi finalizado no início de 2003 e foi realizado em parceria com a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial, uma importante organização de inteligência com 14.500 funcionários e um orçamento de US $ 5 bilhões cujo trabalho era fornecer inteligência via satélite à CIA e ao Pentágono. Conhecido por seu acrônimo “NGA”, o lema da agência de espionagem era: “Conheça a Terra … Mostre o caminho… Entenda o mundo.”100

A CIA e a NGA não eram apenas investidores; elas também eram clientes e se envolveram na personalização do produto de mapa virtual da Keyhole para atender às suas próprias necessidades.101 Meses após o investimento da In-Q-Tel, o software Keyhole já estava integrado ao serviço operacional e implantado para apoiar as tropas estadunidenses durante a Operação Liberdade do Iraque, a campanha de choque e pavor para derrubar Saddam Hussein.102 Funcionários da inteligência ficaram impressionados com a simplicidade “semelhante a um videogame” de seus mapas virtuais. Eles também apreciaram a capacidade de colocar informações visuais sobre outras informações.103 As possibilidades eram limitadas apenas por quais dados contextuais podiam ser alimentados e enxertados em um mapa: movimentos de tropas, esconderijos de armas, condições climáticas e do oceano em tempo real, e-mails interceptados e informações de telefonemas, localizações de telefones celulares. A Keyhole deu a um analista de inteligência, um comandante em campo ou um piloto da força aérea no ar o tipo de capacidade que agora assumimos como evidente: usar serviços de mapeamento digital em nossos computadores e telefones celulares para procurar restaurantes, cafés, museus, condições de tráfego e rotas de metrô. “Poderíamos fazer essas sobreposição de informações e mostrar as fontes de dados herdadas existentes em questão de horas, em vez de semanas, meses ou anos”, disse um funcionário da NGA alguns anos depois.104

Os comandantes militares não eram os únicos que gostavam do software Keyhole. Sergey Brin também. Ele gostou tanto que insistiu em demonstrar pessoalmente o aplicativo para executivos da Google. Em um relato publicado na Wired, ele invadiu uma reunião da empresa, digitou o endereço de todas as pessoas presentes e usou o programa para voar virtualmente sobre suas casas.105

Em 2004, no mesmo ano em que a Google se tornou pública, Brin e Page compraram a empresa, investidores da CIA e tudo.106 Eles absorveram a empresa na crescente plataforma de aplicativos da Internet da Google. O Keyhole renasceu como Google Earth.

A compra da empresa Keyhole foi um marco importante para a Google, atestando o momento em que a empresa deixou de ser uma empresa de Internet voltada para o consumidor e começou a se integrar ao governo dos EUA. Quando a Google comprou a Keyhole, também adquiriu um executivo da In-Q-Tel chamado Rob Painter, que vinha com profundas conexões com o mundo da inteligência e contratações militares, incluindo Operações Especiais dos EUA, CIA e grandes empresas de defesa como Raytheon, Northrop Grumman e Lockheed Martin.107 Na Google, Painter foi instalado em uma nova divisão de vendas e lobby chamada Google Federal, localizada em Reston, Virgínia, a uma curta distância da sede da CIA em Langley. Seu trabalho na Google era ajudar a empresa a conquistar uma fatia do lucrativo mercado de inteligência militar. Ou, como Painter descreveu na linguagem empreiteiro-burocrática, ele estava lá para “evangelizar e implementar soluções da Google Enterprise para um grande número de usuários nas Comunidades de Inteligência e Defesa”.

A Google havia fechado alguns acordos anteriores com agências de inteligência. Em 2003, assinou um contrato de US $ 2,1 milhões para equipar a NSA com uma solução de pesquisa personalizada que poderia digitalizar e reconhecer milhões de documentos em vinte e quatro idiomas, incluindo suporte técnico de plantão caso algo desse errado. Em 2004, ao lidar com as consequências do bisbilhotamento de e-mails do Gmail, a Google firmou um contrato de pesquisa com a CIA. O valor do acordo não é conhecido, mas a CIA pediu permissão à Google para personalizar a página de pesquisa interna do Google, colocando o selo da CIA em um dos sistemas operacionais da Google. “Eu disse ao nosso representante de vendas que aceitasse se eles prometessem não contar a ninguém. Eu não queria que isso apavorasse os defensores da privacidade”, escreveu Douglas Edwards no livro I’m Feeling Lucky.108 Negócios como esses ficaram cada vez mais comuns e aumentaram em escopo após a aquisição da Keyhole.

Em 2006, a Google Federal de Painter começou a contratar, recrutando gerentes e vendedores do exército, força aérea, CIA, Raytheon e Lockheed Martin.109 Ele injetou esteroides nos seus músculos de lobby e reuniu uma equipe de agentes democratas e republicanos. A Google até pegou o velho figurão da ARPA: Vint Cerf, que, como vice-presidente da Google e principal evangelista da Internet, serviu como uma ponte simbólica entre a Google e os militares.

Enquanto a equipe de relações públicas da Google fazia o possível para manter a empresa envolvida por uma falsa aura de altruísmo nerd, os executivos da empresa seguiam uma estratégia agressiva para se tornar a Lockheed Martin da Era da Internet.110 “Funcionalmente, mais do que triplicamos a equipe a cada ano”, disse Painter em 2008.111 Era verdade. Com a ajuda de atores de dentro daquele mercado, a expansão da Google no mundo dos contratos militares e de inteligência decolou.

Em 2007, a Google fez uma parceria com a Lockheed Martin para projetar um sistema de inteligência visual para a NGA que exibia bases militares dos EUA no Iraque e marcava bairros sunitas e xiitas em Bagdá – informações importantes para uma região que havia sofrido uma insurgência sectária sangrenta e uma campanha de limpeza étnica entre os dois grupos.112 Em 2008, a Google ganhou um contrato para rodar os servidores e a tecnologia de pesquisa que alimentava o Intellipedia da CIA, um banco de dados de inteligência aos moldes da Wikipedia que era editado colaborativamente pela NSA, CIA, FBI e outras agências federais.113 Pouco tempo depois, a Google foi contratada pelo Exército dos EUA para equipar cinquenta mil soldados com um conjunto personalizado de serviços da Google para smartphone.114

Em 2010, como um sinal de quão profundamente a Google havia se integrado às agências de inteligência dos EUA, ela ganhou um contrato exclusivo de US $ 27 milhões para oferecer à NGA “serviços de visualização geoespacial”, tornando efetivamente a gigante da Internet os “olhos” dos aparelhos de defesa e inteligência estadunidenses. Os concorrentes criticaram a NGA por não abrir o contrato ao processo habitual de licitação, mas a agência defendeu sua decisão, dizendo que não tinha escolha: passou anos trabalhando com a Google em programas secretos e ultrassecretos para construir a tecnologia do Google Earth de acordo com sua necessidades e não poderia ir com nenhuma outra empresa.115

A Google foi minuciosa sobre os detalhes e o escopo de seus negócios de contratação. Ela não lista essa receita em uma coluna separada nos relatórios trimestrais de ganhos aos investidores, nem fornece a soma aos repórteres. Porém, uma análise do banco de dados de contratação federal mantido pelo governo dos EUA, combinado com informações obtidas dos pedidos da Lei da Liberdade de Informação e relatórios periódicos publicados sobre o trabalho militar da empresa, revela que a Google tem feito negócio vendendo o Google Search, Google Earth e Produtos da Google Enterprise (agora conhecido como G Suite) para praticamente todas as principais agências de inteligência e militares: marinha, exército, força aérea, Guarda Costeira, DARPA, NSA, FSA, FBI, DEA, CIA, NGA e Departamento de Estado.116 Às vezes, a Google vende diretamente ao governo, mas também trabalha com empresas contratadas como a Lockheed Martin, Raytheon, Northrop Grumman e SAIC (Science Applications International Corporation), um mega-contratado de inteligência da Califórnia que tem tantos ex-funcionários da NSA trabalhando nele que é conhecido no meio empresarial como a “NSA do Oeste”.117

A entrada da Google nesse mercado faz sentido. Quando o Google Federal entrou na Internet em 2006, o Pentágono estava gastando a maior parte de seu orçamento em empresas privadas. Naquele ano, do orçamento de US $ 60 bilhões em inteligência dos EUA, 70% ou US $ 42 bilhões, foram destinados a empresas. Isso significa que, embora o governo pague a conta, o trabalho real é realizado pela Lockheed Martin, Raytheon, Boeing, Bechtel, Booz Allen Hamilton e outros contratados poderosos.118 E isso não é apenas no setor de defesa. Em 2017, o governo federal gastava US $ 90 bilhões por ano em tecnologia da informação.119 É um mercado enorme – no qual a Google procura manter uma forte presença. E seu sucesso foi praticamente garantido. Seus produtos são os melhores do mercado.120

Eis um sinal de quão vital a Google se tornou para o governo dos EUA: em 2010, após uma invasão desastrosa em seu sistema pelo que a empresa acredita ser um grupo de hackers do governo chinês, a Google firmou um acordo secreto com a Agência de Segurança Nacional.121 “De acordo com funcionários que estavam a par dos detalhes dos acordos da Google com a NSA, a empresa concordou em fornecer informações sobre o tráfego em suas redes em troca de informações da NSA sobre o que sabia de hackers estrangeiros”, escreveu o repórter de defesa Shane Harris no livro @War, uma história sobre guerra. “Era um quid pro quo, informação por informação. E da perspectiva da NSA, informações em troca de proteção. ”122

Isso fez todo o sentido. Os servidores da Google forneceram serviços críticos ao Pentágono, à CIA e ao Departamento de Estado, apenas para citar alguns. Fazia parte da família militar e era essencial para a sociedade estadunidense. Logo, a Google também precisava ser protegido.

A Google não trabalhou apenas com agências de inteligência e militares, mas também procurou penetrar em todos os níveis da sociedade, incluindo agências federais civis, cidades, estados, departamentos de polícia locais, equipes de emergência, hospitais, escolas públicas e todos os tipos de empresas e organizações sem fins lucrativos. Em 2011, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, a agência federal que pesquisa tempo e meio ambiente, passou para a Google.123 Em 2014, a cidade de Boston implantou a Google para administrar a infraestrutura de informações de seus oitenta mil funcionários – de policiais a professores – e até migrou seus e-mails antigos para a nuvem da Google.124 O Serviço Florestal e a Administração Federal de Rodovias usam o Google Earth e o Gmail. Em 2016, a cidade de Nova York chamou a Google para instalar e operar estações Wi-Fi gratuitas por toda a cidade.125 Califórnia, Nevada e Iowa, enquanto isso, dependem da Google para plataformas de computação em nuvem que preveem e detectam fraudes no sistema de bem-estar social.126 Enquanto isso, a Google medeia a educação de mais da metade dos alunos das escolas públicas dos Estados Unidos.127

“O que realmente fazemos é permitir que você agregue, colabore e realize”, explicou Scott Ciabattari, representante de vendas do Google Federal, durante uma conferência de contratação do governo em 2013 em Laramie, Wyoming. Ele estava montando uma sala cheia de funcionários públicos, dizendo a eles que a Google tinha tudo para fazer com que eles – analistas de inteligência, comandantes, gerentes de governo e policiais – acessassem as informações certas no momento certo.128 Ele examinou alguns exemplos: rastreio surtos de gripe, monitoramento de inundações e incêndios florestais, cumprimento de mandados criminais com segurança, integração de câmeras de vigilância e sistemas de reconhecimento facial e até ajuda a policiais a responder a tiroteios em escolas. “Estamos começando a ter, infelizmente, com alguns dos incidentes que acontecem nas escolas, a capacidade de montar uma planta baixa desses eventos”, disse ele. “Estamos recebendo esse pedido com cada vez mais frequência. ‘Você pode nos ajudar a publicar todas as plantas/mapas do nosso distrito escolar. Se houver um desastre, Deus o livre, queremos saber onde estão acontecendo as coisas.’ E ter essa capacidade usando um smartphone. Ser capaz de ver essas informações rapidamente no momento certo salva vidas.” Alguns meses após essa apresentação, Ciabattari se reuniu com autoridades de Oakland para discutir como a Google poderia ajudar a cidade da Califórnia a construir seu centro de vigilância policial.

Essa mistura de sistemas militares, policiais, governamentais, educação pública, negócios e voltados para o consumidor – todos canalizados pela Google – continua despertando alarmes. Os advogados se preocupam com a possibilidade de o Gmail violar os a privacidade entre advogado e cliente.129 Os pais se perguntam o que a Google faz com as informações coletadas sobre os filhos na escola. O que a Google faz com os dados que fluem pelo seu sistema? Tudo isso alimenta a máquina de vigilância corporativa da Google? Quais são os limites e restrições da Google? Existe alguma? Em resposta a essas perguntas, a Google oferece apenas respostas vagas e conflitantes.130

Obviamente, essa preocupação não se restringe apenas à Google. Sob o manto da maioria das outras empresas de Internet que usamos todos os dias, existem vastos sistemas de vigilância privada que, de uma maneira ou de outra, trabalham e fortalecem o Estado.

O eBay criou uma divisão policial interna chefiada por veteranos da Agência de Repressão às Drogas e do Departamento de Justiça. Possui mais de mil investigadores particulares, que trabalham em estreita colaboração com as agências de inteligência e policiais em todos os países onde opera.131 A empresa realiza seminários e sessões de treinamento e oferece pacotes de viagens para policiais de todo o mundo.132 O eBay se orgulha de seu relacionamento com as autoridades policiais e se orgulha de que seus esforços levaram à prisão de três mil pessoas em todo o mundo – aproximadamente três por dia desde o início da divisão.133

A Amazon executa serviços de computação e armazenamento em nuvem para a CIA.134 O contrato inicial, assinado em 2013, valia US $ 600 milhões e posteriormente foi expandido para incluir a NSA e uma dúzia de outras agências de inteligência dos EUA.135 O fundador da Amazon, Jeff Bezos, usou sua fortuna para lançar a Blue Origin, uma empresa de mísseis que faz parceria com a Lockheed Martin e a Boeing.136 A Blue Origin é uma concorrente direta da SpaceX, uma empresa espacial criada por outro magnata da Internet: o cofundador do PayPal, Elon Musk. Enquanto isso, outro fundador do PayPal, Peter Thiel, transformou o sofisticado algoritmo de detecção de fraudes do PayPal na Palantir Technologies, uma importante empresa militar que fornece serviços avançados de mineração de dados para a NSA e a CIA.137

O Facebook também é acolhedor com os militares. Ele levou a ex-chefe da DARPA, Regina Dugan, a administrar sua secreta divisão de pesquisa “Building 8”, que está envolvida em tudo, desde inteligência artificial a redes de Internet sem fio baseadas em drones. O Facebook está apostando muito na realidade virtual como a interface do usuário do futuro. E o Pentágono também. Segundo relatos, o headset de realidade virtual Oculus do Facebook já foi integrado ao Plano X da DARPA, um projeto de US $ 110 milhões para construir um ambiente de realidade totalmente imersivo e totalmente virtual para combater ciberguerras.138 Parece algo direto do Neuromancer de William Gibson, e parece que funciona. Em 2016, a DARPA anunciou que o Plano X seria transferido para uso operacional pelo Comando Cibernético do Pentágono dentro de um ano.139

Em um nível mais acima, não há diferença real entre o relacionamento da Google com o governo dos EUA e o de outras empresas de Internet. É apenas uma questão de grau. A grande amplitude e escopo da tecnologia da Google a tornam um substituto perfeito para o restante do ecossistema comercial da Internet.

De fato, o tamanho e a ambição da Google a tornam mais do que uma simples terceirizada. Frequentemente, é uma parceira igual que trabalha lado a lado com agências governamentais, usando seus recursos e domínio comercial para trazer empresas com forte financiamento militar ao mercado. Em 2008, lançou um satélite espião privado chamado GeoEye-1 em parceria com a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial.140 Ela comprou a Boston Dynamics, uma empresa de robótica da DARPA que produzia mulas robótica experimentais para os militares, apenas para vendê-la depois que o Pentágono determinou que não colocaria esses robôs em uso ativo.141 Investiu US $ 100 milhões na CrowdStrike, uma importante empresa de defesa cibernética militar e de inteligência que, entre outras coisas, liderou a investigação sobre os supostos hacks do governo russo em 2016 do Comitê Nacional Democrata.142 E também administra a JigSaw, uma incubadora híbrida de tecnologia de think tank destinada a alavancar a tecnologia da Internet para resolver problemas complicados de política externa, desde terrorismo a censura e guerra cibernética.143

Fundada em 2010 por Eric Schmidt e Jared Cohen, um garoto de 29 anos do Departamento de Estado, que serviu tanto para o presidente George W. Bush quanto para o presidente Barack Obama, a JigSaw lançou vários projetos com implicações de política externa e segurança nacional.144 Ela fez uma pesquisa para o governo dos EUA para ajudar a Somália devastada pela guerra a redigir uma nova constituição, desenvolveu ferramentas para rastrear as vendas globais de armas e trabalhou com uma start-up financiada pelo Departamento de Estado para ajudar as pessoas no Irã e na China a contornar a censura na Internet .145 Ela também criou uma plataforma para combater o recrutamento e a radicalização de terroristas on-line, que funcionava identificando usuários do Google interessados em tópicos extremistas islâmicos e desviando-os para páginas e vídeos do Departamento de Estado desenvolvidos para dissuadir as pessoas de seguir esse caminho.146 A Google chama isso de “Método de redirecionamento”, que parte da ideia mais ampla de Cohen de usar plataformas da Internet para pagar “contrainsurgência digital”.147 E, em 2012, à medida que a guerra civil na Síria se intensificou e o apoio estadunidense às forças rebeldes de lá aumentou, a JigSaw debateu maneiras de ajudar a tirar Bashar al-Assad do poder. Entre elas: uma ferramenta que mapeia visualmente as deserções de alto nível do governo de Assad, que Cohen queria transmitir à Síria como propaganda para dar “confiança à oposição”. “Anexei alguns recursos visuais que mostram como será a ferramenta”, escreveu Cohen a vários assessores de Hillary Clinton, que na época era secretária de Estado. “Por favor, mantenha esse contato muito próximo e deixe-me saber se há mais alguma coisa que você acha que precisamos explicar ou pensar antes de lançarmos”.148 Como mostram os e-mails vazados, a secretária Clinton ficou intrigada, dizendo a seus assessores que imprimissem a maquete de Cohen do aplicativo para que ela pudesse ver por si mesma.149

A JigSaw parecia turvar a linha entre diplomacia pública e corporativa, e pelo menos um ex-funcionário do Departamento de Estado acusou-a de fomentar mudanças de regime no Oriente Médio.150 “A Google está recebendo apoio da [Casa Branca] e do Departamento de Estado e cobertura aérea. Na realidade, eles estão fazendo coisas que a CIA não pode fazer”, escreveu Fred Burton, executivo da Stratfor e ex-agente de inteligência do Serviço de Segurança Diplomático, o ramo de segurança armada do Departamento de Estado.151

Mas a Google rejeitou as alegações de seus críticos. “Não estamos envolvidos em mudanças de regime”, disse Eric Schmidt à Wired.152 “Não fazemos essas coisas. Mas se capacitar os cidadãos com smartphones e informações causa mudanças em seu país, então… isso provavelmente é uma coisa boa, não acha?”

Mediando Tudo e Todos

O trabalho da JigSaw com o Departamento de Estado levantou sobrancelhas, mas sua função é uma mera demonstração do futuro se a Google conseguir o que quer. Enquanto a empresa faz novos acordos com a NSA e continua sua fusão com o aparato de segurança dos EUA, seus fundadores a veem desempenhando um papel ainda maior na sociedade global.

“O objetivo da sociedade é nosso objetivo principal. Sempre tentamos dizer isso na Google. Eis algumas das questões mais fundamentais em que as pessoas não estão pensando: como organizamos as pessoas, como motivamos as pessoas. É um problema realmente interessante: como organizamos nossas democracias?” ruminou Larry Page durante uma rara entrevista em 2014 com o Financial Times. Ele olhou cem anos no futuro e viu a Google no centro do progresso. “Nós provavelmente poderíamos resolver muitos dos problemas que temos como humanos”.153

Gaste tempo ouvindo e lendo as palavras dos executivos da Google, e você rapidamente perceberá que eles não veem linha clara separando governo e Google. Eles olham para o futuro e vêem empresas da Internet se transformando em sistemas operacionais para a sociedade. Para eles, o mundo é grande demais e se move rápido demais para os governos tradicionais o acompanharem.154 O mundo precisa da ajuda da Google para liderar o caminho, fornecer ideias, investimentos e conhecimento técnico. E, de qualquer maneira, não há como impedir a expansão da tecnologia.155 Transporte, entretenimento, usinas e redes de energia, departamentos policiais, empregos, transporte público, saúde, agricultura, moradia, eleições e sistemas políticos, guerra e até exploração espacial – tudo está conectado à Internet e empresas como a Google não podem deixar de estar no centro. Não há escapatória.

Algumas pessoas na Google falam sobre a construção de uma nova cidade a partir da “Internet”, usando a arquitetura de dados da Google como base, livre de regulamentos governamentais que restringem a inovação e o progresso.156 Esse mundo novo e corajoso, cheio de biossensores da Google e piscando com fluxos de dados ininterruptos, é realmente apenas o velho mundo dos sonhos ciber-libertarianistas, visto pela primeira vez no Catálogo Toda a Terra e a poesia utópica de Richard Brautigan, um mundo onde “mamíferos e computadores / moram juntos em harmonia / de programação mútua… uma floresta cibernética … onde veados passeiam pacificamente, / passam por computadores … e todos vigiados por máquinas de amorosa graça.” Exceto que na versão deste futuro da Google, as máquinas da graça amorosa não são uma abstração benevolente, mas uma poderosa corporação global.157

O paralelo não inspira confiança. Na década de 1960, muitos dos novos comunalistas de Brand construíram microcomunidades baseadas em ideias cibernéticas, acreditando que hierarquias planas, transparência social e interconectividade radical entre indivíduos aboliriam a exploração, a hierarquia e o poder. No final, a tentativa de substituir política por tecnologia foi a falha fatal: sem proteção organizada para os fracos, essas pretensas utopias se transformaram em cultos controlados por líderes carismáticos e dominadores que governavam seus feudos por meio de humilhação e intimidação. “Havia constantemente um pano de fundo de medo na casa – como um vírus correndo no fundo. Como spyware. Você sabe que está lá, mas não sabe como se livrar dele”, lembra uma membro de uma comuna do Novo México que caiu num mundo de pesadelos de abuso e exploração sexual.

Um spyware sendo executado em segundo plano.

É uma curiosa escolha de palavras para explicar como foi viver em uma utopia cibernética dos anos 1970 que deu errado. É também uma descrição precisa do mundo atual que a Google e a Internet construíram.

Vale da Vigilância – Cap 5. Vigilância S.A. (4)

Relatório minoritário

É 6 de outubro de 2014. Estou no escritório do professor da UCLA Jeffrey Brantingham. Está quente e ensolarado, e os alunos se sentam na grama do lado de fora das salas. Lá dentro, nós dois nos inclinamos sobre a tela do computador, inspecionando um mapa interativo de crimes. Ele dá um zoom na praia Venice.

“Essa costumava ser a capital da heroína em Los Angeles. Grande parte do tráfico de heroína está acontecendo aqui. Você pode ver como isso muda”, ele diz, alternando entre os padrões de crime diurno e noturno no oeste de Los Angeles. “Então, se você olhar mais longe na costa do Pacífico, você consegue diz o que está acontecendo com alguns desses outros lugares? Como aqui. Essa é a Playa Vista. Aqui em cima, Palms.”69

Brantingham, esbelto e de fala mansa, com barba grisalha curta e cabelos espetados, é professor de antropologia. Ele também é co-fundador da PredPol Inc., uma nova e importante start-up de policiamento preditivo que surgiu de pesquisas de contrainsurgência financiadas pelo Pentágono para prever e impedir ataques a soldados estadunidenses no Iraque.70 Em 2012, os pesquisadores trabalharam com o Departamento de Polícia de Los Angeles para aplicar sua modelagem algorítmica na previsão de crimes. Assim, nasceu a PredPol.

O nome da empresa evoca o livro “Relatório Minoritário” de Philip K. Dick, mas a própria empresa possui uma taxa de sucesso espetacular: reduzir o crime em até 25% em pelo menos uma cidade que o implantou.71 Ele funciona ingerindo décadas de dados criminais, combinando-os com dados sobre o ambiente local – fatores como a localização de lojas de bebidas, escolas, rampas de rodovias – e rodando todas as variáveis por meio de um algoritmo proprietário que gera pontos críticos onde criminosos são mais propensos a vir a atacar.

“O software foi adaptado e modificado a partir de algo que previa terremotos”, explica Brantingham enquanto tomamos café. “Se você pensa em Los Angeles e terremotos, para qualquer terremoto que ocorra, você pode realmente atribuir com boa precisão de onde ele vem, em termos de suas causas. Depois que um terremoto ocorre em uma dessas falhas geológicas, você recebe tremores secundários, que ocorrem perto de onde o choque principal ocorreu e cada vez mais rápidos.

“Com o crime é exatamente o mesmo”, continua ele. “Nosso ambiente possui muitos recursos construídos que são geradores de crimes e que não vão a lugar algum. Um ótimo exemplo é uma escola secundária. As escolas secundárias não vão a lugar algum na maior parte do tempo. É um recurso construído que é parte do ambiente. E o que as escolas secundárias têm? Muitos jovens de quinze a dezessete ou quinze a dezoito anos, e não importa para onde você vá no planeta, os jovens de quinze a dezessete anos se metem em confusão. Se metem, sim. Sempre será assim, por causa da testosterona ou das meninas ou o que quer que seja. É a nossa herança dos primatas.”

Coço minha cabeça, concordando. Mas ainda não faz muito sentido para mim. Certamente, é preciso explicar o fato de que os seres humanos têm livre-arbítrio. Certamente, será que eles resistiriam a serem tratados como lajes gigantes de rocha de lava flutuante, esfregando violentamente uma contra a outra? Não havia causas sociais e políticas mais profundas do crime além da simples infraestrutura – coisas como pobreza e dependência de drogas? No que diz respeito às escolas secundárias e às crianças sendo crianças, não deveria haver outras maneiras de lidar com os adolescentes problemáticos além da criminalização e do policiamento concentrado?

Brantingham responde que a PredPol não está tentando consertar a sociedade, mas apenas ajudar a polícia a prevenir o crime. “A PredPol não tem a ver com combater as causas do crime”, diz ele. “A PredPol busca conseguir que o policial seja a ferramenta para dificultar a ocorrência desse crime. Isso não quer dizer que que não precisamos consertar o vício em metanfetamina. Precisamos consertar o vício em metanfetamina.”Em resumo: alguém tem que fazer o trabalho duro de melhorar a sociedade, lidando com as causas sociais e econômicas do crime. A PredPol está simplesmente ajudando os policiais a conter com mais eficiência a bagunça que existe hoje.

Em 2014, a PredPol era uma das muitas empresas competindo por um mercado incipiente, mas em rápida expansão, em tecnologias de policiamento preditivo.72 Empresas grandes e estabelecidas, como IBM, LexisNexis e Palantir, ofereciam produtos que previam o crime.73 A PredPol, embora pequena, assinou contratos com departamentos de polícia de todo o país: Los Angeles; Condado de Orange, no centro da Flórida; Reading, Pensilvânia; Tacoma, Washington. Jornais e emissoras de televisão locais adoraram a história da PredPol: a cura milagrosa de alta tecnologia que os departamentos de polícia estavam esperando. Permitiu aos policiais reduzir o crime a baixo custo. Com um preço de US $ 25.000 a US $ 250.000 por ano, dependendo da população de uma cidade, a PredPol parecia uma pechincha.

O policiamento preditivo estava engatinhando, mas já era criticado por ativistas e cientistas sociais que o viam como uma nova marca da tática milenar de criação de perfil racial e econômico reforçada com um brilho objetivo e orientado por dados.74 Áreas e indivíduos ricos nunca pareciam ser alvo de policiamento preditivo, nem a técnica se concentrou em criminosos de colarinho branco. Jornalistas e criminologistas criticaram a PredPol, em particular por alegar que ela simplesmente não podia ser respaldada.75

Apesar desses choques, a PredPol tinha partidários e apoiadores no Vale do Silício. Seu conselho de administração e conselho consultivo incluíam figurões: executivos do Google, Facebook, Amazon e eBay, além de um ex-diretor da In-Q-Tel, a empresa de capital de risco da CIA que opera no Vale do Silício.76

De volta ao seu escritório, Brantingham oferece pouco sobre os laços da empresa com esses gigantes da Internet. Outro executivo da PredPol me informou que, nos bastidores, a Google era uma das maiores impulsionadoras e colaboradoras da PredPol. “Na verdade, a Google veio até nós”, disse-me por telefone Donnie Fowler, diretor de desenvolvimento de negócios da PredPol.77 “Esse não é o caso de uma pequena empresa minúscula indo a uma gigante como a Google e dizendo que a única maneira de sobrevivermos é pegando carona em você. É um relacionamento mutuamente benéfico.”

Ele se gabou de que, ao contrário de outras empresas, a PredPol fez mais do que simplesmente pagar a licença da tecnologia da Google para incorporar o sistema de mapeamento em seu produto, mas também trabalhou com a Google para desenvolver funcionalidades personalizadas, incluindo “construir sinos e assobios adicionais e até ferramentas adicionais para aplicação da lei”. ” Ele foi direto sobre o motivo pelo qual a Google era tão proativa em trabalhar com sua empresa. “A última fronteira deles é vender sua tecnologia aos governos. Eles os tornaram consumidores. É com eles que rolam os negócios.” E a PredPol era um suporte de vendas perfeito – um exemplo poderoso dos departamentos de polícia que aproveitavam a tecnologia da Google para manter as pessoas seguras. “Um desses caras da Google me disse: ‘Vocês nos completam'”, disse Fowler com um ar de satisfação.

Policiais? Empreiteiros do governo? Tecnologia de contrainsurgência propulsionada por dados? Previsão de crime alimentada por uma plataforma onipresente da Internet? Ele estava falando sobre a Google? Ou foi um daqueles sistemas de contrainsurgência cibernética da Guerra Fria que o Pentágono sonhou por tanto tempo? Havia alguma diferença?

Aperto a mão de Brantingham e saio de seu escritório. Enquanto atravesso o campus da UCLA em direção ao meu carro, penso na nossa conversa. Com base no que já descobri investigando os negócios de vigilância privada do Vale do Silício, não me surpreendo ao saber que a Google está na cama com uma empresa de previsão de crimes iniciada pela pesquisa de contrainsurgência.

A Internet percorreu um longo caminho desde que Larry Page e Sergey Brin converteram o buscador Google de um projeto de doutorado em Stanford em uma empresa multibilionária. Mas, sob muitos aspectos, não mudou muito desde os dias da ARPANET. Apenas ficou mais poderosa.

O desenvolvimento da parte direcionada ao consumidor foi a mudança mais dramática. A Internet comercial que conhecemos hoje se formou no início dos anos 1990, quando a National Science Foundation privatizou a NSFNET. No espaço de duas décadas, a rede cresceu de um simples meio de dados e de telecomunicações para uma vasta rede global de computadores, smartphones, aplicativos, cabos de fibra ótica, redes celulares e data centers em depósitos tão grandes que cabiam bairros inteiros de Manhattan neles. Hoje, a Internet nos rodeia. Medeia a vida moderna. Lemos livros e jornais na Internet; usamos o banco, compramos e jogamos videogame na Internet. Conversamos por telefone, frequentamos a faculdade, encontramos empregos, paqueramos, trabalhamos, ouvimos música e assistimos a filmes, marcamos consultas com dentistas e obtemos aconselhamento psicológico na Internet. Aparelhos de ar condicionado, telefones, relógios, distribuidores de alimentos para animais de estimação, babás eletrônicas, carros, geladeiras, televisões, lâmpadas – todos esses objetos também se conectam à Internet. Os lugares mais pobres do mundo podem não ter encanamento e eletricidade, mas eles, com certeza, têm acesso à Internet.

A Internet é como uma bolha gigante e invisível que envolve o mundo moderno. Não há escapatória e, como Page e Brin astutamente entenderam quando lançaram a Google, tudo o que as pessoas fazem online deixa um rastro de dados. Se salvos e usados corretamente, esses traços compõem uma mina de ouro com informações cheias de insights sobre as pessoas em um nível íntimo, além de uma leitura valiosa sobre macro tendências culturais, econômicas e políticas.

A Google foi a primeira empresa de Intenet a aproveitar totalmente esse insight e construir um negócio com base nos dados que as pessoas deixam para trás. Mas não ficou sozinha por muito tempo. Algo na tecnologia levou outras empresas na mesma direção. Aconteceu em quase todos os lugares, desde o menor aplicativo até a plataforma mais ampla.

A Netflix monitorou os filmes que as pessoas assistiram para sugerir outros filmes, mas também para orientar o licenciamento de conteúdo e a produção de novos programas.78 Angry Birds, o jogo da Finlândia que se tornou viral, pegou dados dos smartphones das pessoas para criar perfis, com informações como idade, sexo, renda familiar, estado civil, orientação sexual, etnia e até alinhamento político, e transmiti-los para empresas de publicidade direcionada de terceiros.79 Os executivos do Pandora, o serviço de streaming de música, construíram um novo fluxo de receita, analisando seus setenta e três milhões de ouvintes, captando suas crenças políticas, etnia, renda e até status parental, para depois vender essas informações para anunciantes e empresas de campanhas políticas. A Apple extraiu dados dos dispositivos das pessoas – fotos, emails, mensagens de texto e locais – para ajudar a organizar as informações e antecipar as necessidades dos usuários. Em seus materiais promocionais, divulgou isso como uma espécie de assistente pessoal digital que poderia “fazer sugestões proativas para onde você provavelmente irá”.

O eBay de Pierre Omidyar, o maior site de leilões on-line do mundo, implantou software especializado que monitorava os dados dos usuários e combinava-os com as informações disponíveis on-line para desmascarar vendedores fraudulentos.81 Jeff Bezos sonhava em transformar sua varejista on-line Amazon na “loja de tudo”, uma plataforma global de vendas que anteciparia todas as necessidades e desejos dos usuários e entregaria produtos sem ser solicitada.82 Para fazer isso, a Amazon implantou um sistema para monitoramento e criação de perfil. Ele registrava os hábitos de compra das pessoas, suas preferências de filmes, os livros nos quais estavam interessados, a rapidez com que liam livros em seus Kindles e os destaques e notas de margem que eles faziam. Também monitorou os trabalhadores dos depósitos, rastreando seus movimentos e cronometrando seu desempenho.83 A Amazon exige um poder de processamento incrível para administrar um negócio de dados tão grande, uma necessidade que gerou um negócio paralelo lucrativo de alugar espaço em seus servidores enormes para outras empresas. Hoje, a empresa não é apenas a maior varejista do mundo, mas também a maior empresa de hospedagem na Internet, recebendo US $ 10 bilhões por ano com o armazenamento de dados de outras empresas.84

O Facebook, que começou como um jogo que classificava estudantes mulheres entre “gostosa ou não” em Harvard, transformou-se em uma plataforma global de mídia social alimentada por um modelo de publicidade direcionada semelhante à Google. A empresa engoliu tudo o que seus usuários fizeram: postagens, textos, fotos, vídeos, gostos e desgostos, solicitações de amigos aceitas e rejeitadas, conexões familiares, casamentos, divórcios, locais, opiniões políticas e até postagens excluídas que nunca foram publicadas. Tudo isso foi introduzido no algoritmo secreto de criação de perfis do Facebook, que transformou os detalhes da vida privada em mercadorias privadas. A capacidade da empresa de vincular opiniões, interesses e afiliações de grupos e comunidades tornou-a favorita de empresas de publicidade e marketing de todos os tipos.

As campanhas políticas, em particular, adoraram o acesso direto oferecido pelo Facebook. Em vez de cobrir as ondas de rádio com um único anúncio político, eles poderiam usar perfis comportamentais detalhados para segmentar suas mensagens de forma micro-segmentada, mostrando anúncios que apelavam especificamente para indivíduos e para os problemas que eles consideravam caros. O Facebook até permitiu campanhas para carregar listas de eleitores e apoiadores em potencial diretamente no sistema de dados da empresa e, em seguida, usar as redes sociais dessas pessoas para extrapolar outras pessoas que podem apoiar um candidato.85 Era uma ferramenta poderosa e lucrativa. Uma década depois que Mark Zuckerberg transfigurou a empresa a partir de um projeto de Harvard, 1,28 bilhão de pessoas em todo o mundo usavam a plataforma diariamente, e o Facebook cunhava US $ 62 em receita para cada um de seus usuários nos EUA.86

A Uber, empresa de táxi na Internet, implantou uso de dados para evitar a regulamentação e a supervisão do governo em apoio à sua expansão agressiva nas cidades onde operava ilegalmente. Para fazer isso, a empresa desenvolveu uma ferramenta especial que analisou as informações do cartão de crédito, os números de telefone, os locais e os movimentos dos usuários, e a maneira como os usuários usavam o aplicativo para identificar se eram policiais ou funcionários do governo que poderiam estar chamando um Uber, apenas para multar motoristas ou apreender seus carros. Se o perfil correspondesse, esses usuários seriam silenciosamente incluídos na lista negra do aplicativo.87

Uber, Amazon, Facebook, eBay, Tinder, Apple, Lyft, Four-Square, Airbnb, Spotify, Instagram, Twitter, Angry Birds. Se você diminuir o zoom e olhar para o quadro maior, poderá ver que, juntas, essas empresas transformaram nossos computadores e telefones em esccutas espiãs conectadas a uma vasta rede de vigilância de propriedade corporativa. Para onde vamos, o que fazemos, sobre o que falamos, com quem falamos e nos encontramos – tudo é gravado e, em algum momento, transformado em valor. Google, Apple e Facebook sabem quando uma mulher visita uma clínica de aborto, mesmo que ela não conte a mais ninguém: as coordenadas GPS no telefone não mentem. Transas de uma noite e casos extraconjugais são muito fáceis de descobrir: dois smartphones que nunca se conheceram de repente se cruzam em um bar e depois se dirigem a um apartamento do outro lado da cidade, ficam juntos durante a noite e se separam pela manhã. Eles nos conhecem intimamente, até as coisas que escondemos das pessoas mais próximas a nós. E, como o programa Greyball da Uber mostra tão claramente, ninguém escapa – nem mesmo a polícia.

Em nosso moderno ecossistema da Internet, esse tipo de vigilância privada é a norma. É tão despercebido e normal quanto o ar que respiramos. Mas mesmo nesse ambiente sofisticado e esfomeado por dados, em termos de escopo e onipresença, a Google reina suprema.

À medida que a Internet se expandia, a Google cresceu junto com ela. Cheia de dinheiro, a Google começou a fazer compras vertiginosamente. Comprou empresas e startups, absorvendo-as em sua crescente plataforma. Ela foi além da pesquisa e do email, expandiu-se para processamento de texto, bancos de dados, blogs, redes de mídia social, hospedagem na nuvem, plataformas móveis, navegadores, auxiliadores de navegação, laptops baseados na nuvem e toda uma gama de aplicativos de escritório e produtividade. Pode ser difícil acompanhar todos eles: Gmail, Google Docs, Google Drive, Google Maps, Android, Google Play, Google Cloud, YouTube, Google Translate, Google Hangouts, Google Chrome, Google+, Google Sites, Google Developer, Google Voz, Google Analytics, Android TV. A empresa ultrapassou os serviços puramente voltados para a Internet e investiu em sistemas de telecomunicações de fibra ótica, tablets, laptops, câmeras de segurança doméstica, carros autônomos, entrega de compras, robôs, usinas elétricas, tecnologia de extensão de vida, segurança cibernética e biotecnologia. Ela chegou a lançar um poderoso banco de investimento interno que agora rivaliza com as empresas de Wall Street, investindo dinheiro em tudo, desde Uber até obscuras startups de monitoramento de culturas agrícolas, ambiciosas empresas de sequenciamento de DNA humano como 23andME e um centro de pesquisa secreto para a extensão de vida chamado Calico .88

Independentemente do serviço implantado ou do mercado em que entrou, a vigilância e a previsão foram incorporadas aos negócios. Os dados que fluem pelo sistema da Google são surpreendentes. Até o final de 2016, o Android da Google estava instalado em 82% de todos os novos smartphones vendidos em todo o mundo, com mais de 1,5 bilhão de usuários de Android no mundo todo.89 Ao mesmo tempo, a Google processava bilhões de pesquisas e o YouTube era reproduzido diariamente e tinha um bilhão de usuários ativos do Gmail, o que significava que ela tinha acesso à maioria dos emails do mundo.90 Alguns analistas estimam que 25% de todo o tráfego da Internet na América do Norte passa pelos servidores da Google.91 A empresa não está apenas conectada à Internet, é a Internet.

A Google foi pioneira em todo um novo tipo de transação comercial. Em vez de pagar pelos serviços da Google com dinheiro, as pessoas pagam com seus dados. E os serviços que oferece aos consumidores são apenas as atrações – usados para capturar os dados das pessoas e dominar sua atenção, atenção contratada pelos anunciantes. A Google usou dados para aumentar seu império. Em 2017, tinha US $ 90 bilhões em receitas e US $ 20 bilhões em lucros, com setenta e dois mil funcionários em período integral trabalhando em setenta escritórios em mais de quarenta países.92 Tinha uma capitalização de mercado de US $ 593 bilhões, tornando-a a segunda empresa pública mais valiosa do mundo – perdendo apenas para a Apple, outra gigante do Vale do Silício.93

Além disso, outras empresas de Internet dependem da Google para sobreviver. Snapchat, Twitter, Facebook, Lyft e Uber – todos construíram negócios de bilhões de dólares sobre o onipresente sistema operacional móvel da Google. Como guardiã, a Google também se beneficia do sucesso deles. Quanto mais pessoas usam seus dispositivos móveis, mais dados eles recebem.

O que a Google sabe? O que ela pode adivinhar? Bem, parece quase tudo. “Uma das coisas que eventualmente acontece … é que não precisamos que você digite”, disse Eric Schmidt, CEO da Google, em um momento de sinceridade em 2010. “Porque nós sabemos onde você está. Sabemos onde você esteve. Podemos adivinhar mais ou menos o que você está pensando.” 94 Mais tarde, acrescentou: “Um dia tivemos uma conversa em que pensávamos que poderíamos apenas tentar prever o mercado de ações. E então decidimos que era ilegal. Então paramos de fazer isso.”

É um pensamento assustador, considerando que a Google não é mais uma startup atraente, mas uma poderosa corporação global com sua própria agenda política e uma missão para maximizar os lucros para os acionistas. Imagine se Philip Morris, Goldman Sachs ou um empreiteiro militar como a Lockheed Martin tivessem esse tipo de acesso.

Vale da Vigilância – Cap 5. Vigilância S.A. (3)

Email espião

É abril de 2004 e a Google está em modo de crise. Sergey Brin e Larry Page montaram uma sala de guerra e reuniram altos executivos de toda a empresa para lidar com um desenvolvimento perigoso. Desta vez, não estão caçando terroristas, mas repelindo um ataque em andamento.

Cerca de um mês antes, a Google começou a lançar a versão beta do Gmail, seu serviço de e-mail. Foi um grande negócio para a jovem empresa, representando sua primeira oferta de produtos além da pesquisa. No começo, tudo estava indo bem. Então os eventos rapidamente saíram do controle.

O Gmail visava roubar usuários de provedores de e-mail estabelecidos, como Microsoft e Yahoo. Para fazer isso, a Google chocou todo mundo ao oferecer um gigabyte de espaço de armazenamento gratuito para todas as contas – uma quantidade incrível de espaço na época, considerando que o Hotmail da Microsoft oferecia apenas dois megabytes de armazenamento gratuito. Naturalmente, as pessoas correram para se inscrever. Alguns estavam tão ansiosos para obter suas contas que os convites pré-públicos do Gmail estavam chegando a US $ 200 no eBay.50 “Um gigabyte muda tudo. Você não tinha mais o medo de que alguém lhe enviasse uma foto e excedesse seu limite de dois megabytes. Isso faria com que todas as mensagens subsequentes retornassem aos seus remetentes. Agora, não mais”, escreveu o colunista de tecnologia do New York Times David Pogue. “De fato, a Google afirma que, com tanto espaço de armazenamento, você deve largar o hábito de excluir mensagens”.51

O serviço da Google parecia bom demais para ser verdade, mais uma vez subvertendo as leis da economia. Por que uma empresa doaria algo tão valioso? Parecia caridade. Era um exemplo da mágica da Internet acontecendo na nossa frente. Porém, houve uma grande vantagem para a Google.

A caixa de pesquisa onde você digita sua busca era uma coisa poderosa. Isso permitiu que a Google visse a vida, os hábitos e os interesses das pessoas. Mas só funcionava enquanto os usuários permanecessem no site do Google. Assim que clicavam em um link, eles desapareciam e o fluxo de navegação sumia. O que as pessoas faziam depois que saíam do Google.com? Quais sites elas visitaram? Com que frequência? Quando? Sobre o que eram esses sites? Para essas perguntas, os registros de pesquisa do Google ofereciam um silêncio absoluto. Foi aí que entrou o Gmail.

Depois que os usuários acessavam sua conta de e-mail por um navegador da Internet, a Google conseguia rastrear todos os seus movimentos na Internet, mesmo que usassem vários dispositivos. As pessoas poderiam até usar um mecanismo de busca rival, e mesmo assim a Google poderia manter sua mira sobre elas. O Gmail também deu à Google outra coisa.52

Em troca do gigabyte “gratuito” de armazenamento de e-mail, os usuários deram à empresa permissão para ler e analisar todos os e-mails da mesma maneira que a empresa analisava seus fluxos de pesquisa para exibir anúncios direcionados com base no conteúdo. Eles também deram à Google permissão para vincular seu histórico de pesquisa e hábitos de navegação ao endereço de e-mail.

Nesse sentido, o Gmail abriu uma nova dimensão do rastreamento e da criação de perfis de comportamento: capturou correspondência pessoal e comercial, documentos particulares, cartões postais, fotos de férias, cartas de amor, recibos de compras, contas, registros médicos, extratos bancários, registros escolares e qualquer outra coisa que as pessoas rotineiramente enviem e recebam por email. A Google argumentou que o Gmail beneficiaria os usuários, permitindo que a empresa exibisse anúncios relevantes em vez de inundá-los com spam.

Mas nem todo mundo via dessa maneira.

Menos de uma semana após o lançamento público do Gmail, trinta e uma organizações de privacidade e liberdade civil, lideradas pelo Fórum Mundial de Privacidade, publicaram uma carta aberta endereçada a Sergey Brin e Larry Page pedindo que suspendessem imediatamente o serviço de email. “A Google propôs a digitalização do texto de todos os e-mails recebidos para colocação de anúncios. A verificação de email confidencial viola a confiança implícita de um provedor de serviços de email”, escreveram as organizações. “A Google poderá – amanhã – por opção ou por ordem judicial, empregar seu sistema de verificação para uso jurídico-policial. Observamos que em um caso recente, a Polícia Federal (Federal Bureau of Investigation, FBI) obteve uma ordem judicial obrigando um serviço de navegação de automóveis a converter seu sistema em uma ferramenta para monitorar conversas no carro. Quanto tempo levará até a polícia forçar a Google a uma situação semelhante? ”53

A imprensa, que até então não tinha nada a dizer sobre a Google, se tornou crítica. A empresa foi atacada por jornalistas por sua digitalização “assustadora” de e-mails. Um repórter da revista Maclean do Canadá relatou sua experiência no uso do sistema de anúncios direcionados do Gmail: “Descobri recentemente o quão relevante é o sistema de anúncios da Google quando escrevi um email para um amigo usando minha conta do Gmail. A mensagem mencionava uma mulher grávida cujo marido teve um caso. Os anúncios da Google não divulgaram artigos para bebês e livros para pais. Em vez disso, o Gmail entendeu que ‘grávida’ nesse caso não era uma coisa boa porque estava associada à palavra ‘caso’. Então, me ofereceu os serviços de um detetive particular e um terapeuta matrimonial. ”54

Mostrar anúncios de serviços de espionagem para mães traídas? Isso não cairia bem para uma empresa que ainda se vestia com uma imagem progressista que dizia “Não Seja Malvado”.

Fiel à paranoia de Larry Page sobre privacidade, evitando falar sobre o assunto, a Google permaneceu rígida quanto ao funcionamento interno do seu programa de verificação de e-mail diante das críticas. Mas uma série de perfis e patentes de tecnologia de publicidade direcionada registradas pela empresa naquele ano oferecia um vislumbre de como o Gmail se encaixava no sistema de rastreamento e criação de perfis multiplataforma da Google.55 Essas patentes revelavam que toda a comunicação por email estava sujeita a análise e garimpada por significado; os nomes foram relacionados a identidades e endereços reais usando bancos de dados de terceiros (outras empresas de perfilamento), bem como informações de contato armazenadas no catálogo de endereços do Gmail do usuário; foram extraídos dados demográficos e psicográficos, incluindo classe social, tipo de personalidade, idade, sexo, renda pessoal e estado civil; os anexos de email foram vasculhados para obter informações; até o status de residência de uma pessoa nos EUA foi estabelecido. Tudo isso foi cruzado e combinado com dados coletados pelos registros de pesquisa e navegação do Google, além de provedores de dados de terceiros e, então, adicionados a um perfil de usuário. As patentes deixaram claro que esse perfil não se restringia a usuários registrados do Gmail, mas aplicava-se a qualquer pessoa que enviasse email para uma conta do Gmail.

Em conjunto, esses documentos técnicos revelaram que a empresa estava desenvolvendo uma plataforma que tentava rastrear e criar um perfil de todas as pessoas que entrassem em contato com um produto da Google. Era, em essência, um sistema elaborado de vigilância privada.

Havia ainda outro detalhe. A linguagem nos registros de patentes – as descrições do uso de “informações psicográficas”, “características da personalidade” e “níveis de educação” para traçar um perfil e prever os interesses das pessoas – tinha uma estranha semelhança com as primeiras iniciativas de contrainsurgência baseada em dados financiadas pela ARPA nas décadas de 1960 e 1970. Naquela época, a agência havia experimentado mapear os sistemas de valores e as relações sociais de tribos e grupos políticos rebeldes, na esperança de isolar os fatores que os levaram à revolta e, finalmente, usar essas informações para criar modelos preditivos para interromper as insurgências antes que elas acontecessem. O abortado Projeto Camelot foi um exemplo desse esforço. Outro foi o Projeto Cambridge, também da ARPA, de 1969, de J. C. R. Licklider e Ithiel de Sola Pool, que teve como objetivo desenvolver um conjunto de ferramentas de computador que permitisse que pesquisadores militares construíssem modelos preditivos usando dados complexos, incluindo fatores como “participação política de vários países”, “filiação em associações”, “movimentos juvenis” e “atitudes e comportamentos de camponeses”.

O Projeto Cambridge foi uma primeira tentativa de construir uma base tecnológica para possibilitar previsão e análise de massas de dados. Naturalmente, o sistema preditivo da Google, que apareceu trinta anos depois, era mais avançado e sofisticado do que as ferramentas brutas de banco de dados de primeira geração da ARPA. Mas também era muito parecido. A empresa queria ingerir dados de pesquisa, histórico de navegação e email para criar perfis preditivos capazes de adivinhar os interesses e o comportamento futuros de seus usuários. Havia apenas uma diferença: em vez de impedir insurgências políticas, a Google queria que os dados vendessem produtos e serviços com anúncios direcionados. Um era militar, o outro comercial. Mas, em sua essência, ambos os sistemas foram dedicados à criação de perfil e previsão. O tipo de dados conectado a eles era irrelevante.

O professor de direito da Universidade de Berkeley, Chris Hoofnagle, especialista em direito da privacidade da informação, argumentou perante o Senado da Califórnia que a diferença entre perfis militares e comerciais era ilusória. Ele comparou a digitalização de e-mails pela Google com o projeto de vigilância e previsão do programa Atenção Informacional Total (Total Information Awareness, TIA) da DARPA, uma tecnologia de policiamento preditivo inicialmente financiada pela DARPA e entregue à Agência de Segurança Nacional (NSA) após os ataques terroristas de 11 de setembro em Nova Iorque.56

Um ano após a Google lançar o Gmail, Hoofnagle testemunhou sobre e-mail e privacidade em audiências realizadas pelo Comitê Judiciário do Senado da Califórnia. “A perspectiva de que um computador pudesse, em massa, visualizar dados transacionais e de conteúdo e tirar conclusões era o plano da Atenção Informacional Total (TIA) de John Poindexter”, disse ele, referindo-se ao consultor de segurança nacional do presidente Ronald Reagan que, sob o mandato do presidente George W. Bush, foi encarregado de ajudar a DARPA a combater o terrorismo.57 “A TIA propôs examinar uma ampla variedade de informações pessoais e fazer inferências para a prevenção do terrorismo ou crime em geral. O Congresso rejeitou o plano de Poindexter. A extração de conteúdo do Google é diferente da TIA, pois foi projetada para divulgar publicidade em vez de capturar criminosos.” Para Hoofnagle, a mineração de dados da Google não era apenas tecnicamente semelhante ao que o governo estava fazendo; era uma versão privatizada da mesma coisa. Ele previu que as informações coletadas pelo Gmail seriam eventualmente exploradas pelo governo dos EUA. Não havia dúvidas. “Permitir a extração desse conteúdo de mensagens de email provavelmente terá consequências profundas para a privacidade. Primeiro, se as empresas podem visualizar mensagens privadas para divulgar anúncios, é uma questão de tempo até que a polícia requira acesso para detectar conspirações criminais. Com frequência, em Washington, ouve-se os políticos perguntando: ‘se as empresas de cartão de crédito podem analisar seus dados para vender seu cereal matinal, por que o FBI não pode extrair seus dados para investigar terrorismo?’”58

A linguagem das patentes da Google enfatizou as críticas de Hoofnagle de que havia pouca diferença entre a tecnologia comercial e a militar. Também trouxe a conversa de volta aos medos da década de 1970, quando a tecnologia de computadores e redes estava se tornando comum. Naquela época, havia um amplo entendimento de que os computadores eram máquinas criadas para espionagem: coleta de dados sobre usuários para processamento e análise. Não importava se eram dados do mercado de ações, clima, condições de tráfego ou histórico de compras de uma pessoa.59

Para o Centro de Informações de Privacidade Eletrônica, o Gmail apresentou desafios éticos e legais.60 A organização acreditava que a intercepção de comunicação digital privada feita pela Google era uma violação potencial das leis de escutas telefônicas da Califórnia. A organização pediu ao procurador-geral do estado para investigar a empresa.

O primeiro desafio político da Google veio de uma fonte improvável: a senadora estadual da Califórnia Liz Figueroa, cujo distrito abrange uma enorme faixa do Vale do Silício e inclui o QG da Google em Mountain View. Preocupada com a verificação de e-mail do Google, a senadora apresentou um projeto de lei para proibir os provedores de e-mail de coletar informações de identificação pessoal, a menos que recebessem consentimento explícito de todas as partes em uma conversa por e-mail. Seu escritório a descreveu como uma lei pioneira de privacidade para a era da Internet: “Seria a primeira lei do país a exigir que a Google obtivesse o consentimento de todos os indivíduos antes que suas mensagens de email fossem digitalizadas para fins de publicidade direcionada.

“Dizer às pessoas que seus pensamentos mais íntimos e privados enviados por e-mail para médicos, amigos, amantes e familiares são apenas mais uma mercadoria de marketing direto não é o caminho para promover o comércio eletrônico”, explicou a senadora Figueroa, quando anunciou o projeto de lei em 21 de abril de 2004. “No mínimo, antes que os pensamentos mais íntimos e privados de alguém sejam convertidos em uma oportunidade de marketing direto para a Google, a empresa deve obter o consentimento informado de todos.”61

A lei proposta deixou Page e Brin em pânico. No momento em que os dois se preparavam para abrir o capital da empresa, eles enfrentaram uma legislação que ameaçava seu modelo de negócios. Obter o consentimento das pessoas – informando-as com antecedência sobre a maneira invasiva que a Google as rastreava – era o cenário de pesadelo de Page de uma divulgação pública das práticas de coleta de dados da empresa; poderia desencadear um desastre de relações públicas e outras coisas piores.

Os executivos da Google montaram uma sala de guerra para lidar com a crescente avalanche de críticas. Brin comandou o esforço.62 Ele ficou furioso com os críticos da Google: eles eram ignorantes; eles não entendiam de tecnologia; eles não tinham ideia de nada. “Bastardos, bastardos!” ele gritou.63 Page fez ligações pessoais para jornalistas de tecnologia simpáticos à empresa, explicando que não havia problema de privacidade e que a Google realmente não espionava os usuários. Ele também organizou uma reunião frente a frente com a senadora Figueroa e seu chefe de gabinete.64

“Entramos nesta sala e estamos eu e dois de meus funcionários – meu chefe de gabinete e um de meus advogados. E à nossa frente estavam Larry, Sergey e o advogado deles”, contou a senadora. Brin imediatamente lançou uma longa explicação das políticas de privacidade da empresa, argumentando que as críticas de Figueroa eram infundadas.

“Senadora, como você se sentiria se um robô entrasse em sua casa e lesse seu diário e lesse seus registros financeiros, lesse suas cartas de amor, lesse tudo, mas antes de sair de casa, ele implodisse? Isso não está violando a privacidade.” “É claro que sim”, ela respondeu.

Mas Sergey insistiu: “Não, não está. Nada é mantido. Ninguém sabe disso.”

“Esse robô leu tudo. Esse robô sabe se estou triste ou se estou com medo, ou o que está acontecendo? ela respondeu, ainda desafiadora e sem vontade de se curvar.

Brin olhou diretamente para ela e respondeu enigmaticamente: “Ah, não. Esse robô sabe muito mais do que isso.”

Quando a tentativa de Brin de convencer a senadora não funcionou, a empresa reuniu uma equipe de lobistas poderosos e pessoas de relações públicas para açucarar a mensagem e restaurar a imagem correta da Google. À frente do grupo estava Andrew McLaughlin, estrategista-chefe de relações públicas da Google, alegre e sorridente, que mais tarde atuaria como vice-diretor de tecnologia do presidente Barack Obama. Ele sabia exatamente como neutralizar a senadora Liz Figueroa: Al Gore. “Mobilizei o Big Al”, ele se gabou mais tarde.65

Depois de perder a eleição presidencial de 2000 para George Bush, o vice-presidente Gore se dedicou a uma carreira lucrativa como capitalista de risco de tecnologia. Como parte dessa empreitada, ele aceitou a oferta da Google de ser um “membro virtual do conselho”, o que significa que de tempos em tempos ele usava seu poder e conexões para resolver os problemas políticos da Google. Agora, a pedido de McLaughlin, Gore convocou a inconveniente senadora para suas suítes no Ritz-Carlton, no centro de São Francisco. Lá, ele falou-lhe severamente, ensinando-a sobre algoritmos e análise robótica. “Ele foi incrível”, contou McLaughlin. “Ele se levantou e estava desenhando gráficos e fez essa longa analogia com o peso do ICBM, o míssil Minuteman”.66

O que quer que ele tenha feito naquela sala, funcionou. A senadora Figueroa abandonou sua oposição e o primeiro desafio legal ao modelo de negócios de vigilância da Google desapareceu. E pelo menos um jornalista se alegrou: “A única população que provavelmente não ficará encantada com o Gmail é a que ainda se sente desconfortável com esses anúncios gerados por computador. Essas pessoas são livres para ignorar ou mesmo falar mal do Gmail, mas não devem tentar impedir a Google de oferecer o Gmail para o resto de nós”, declarou o jornalista de tecnologia do New York Times David Pogue em maio. “Sabemos que uma coisa boa quando a vemos.”67

Alguns meses depois, em 19 de agosto de 2004, a Google abriu suas ações. Quando a campainha tocou naquela tarde para fechar as negociações da NASDAQ, a Google valia US $ 23 bilhões.68 Sergey Brin e Larry Page alcançaram o status de oligarcas no espaço de um único dia de trabalho, enquanto centenas de seus funcionários se tornaram multimilionários instantâneos, incluindo o cozinheiro da empresa.

Mas as preocupações com o modelo de negócios da Google continuariam assombrando a empresa. O tempo provou que Hoofnagle estava certo. Não havia muita diferença entre a abordagem da Google e a tecnologia de vigilância implantada pela NSA, CIA e Pentágono. De fato, às vezes eram idênticos.

Vale da Vigilância – Cap 5. Vigilância S.A. (2)

Fazia sentido. Na década de 1960, quando os militares estavam lidando com uma avalanche de dados e precisavam de novas ferramentas para digerir e analisar as informações, a ARPA foi incumbida da tarefa de encontrar uma solução. Três décadas depois, a Iniciativa Biblioteca Digital evoluiu para uma extensão do mesmo projeto, impulsionada pelas mesmas necessidades. E, como nos velhos tempos, a DARPA esteve envolvida.22 De fato, em 1994, apenas um ano antes de Page ter chegado a Stanford, o financiamento da DARPA para a Iniciativa Biblioteca Digital na Carnegie Mellon University produziu um sucesso notável: o Lycos, um mecanismo de busca cujo nome se refere a Lycosidae, o nome científico da família das aranhas-lobo.23

O interesse de Larry Page em busca digital se alinhava perfeitamente com os objetivos da Iniciativa Biblioteca Digital, e sua pesquisa foi realizada sob seu guarda-chuva.24 Quando ele finalmente publicou seu primeiro artigo em 1998, apresentava uma frase familiar: “financiado pela DARPA”. A agência que criou a Internet continuava sendo um ator central.

Larry Page conheceu Sergey Brin em seu primeiro dia em Stanford, na reunião de orientação de pós-graduação. Os dois eram ao mesmo tempo semelhantes e completos opostos. Rapidamente se tornaram amigos.

Page era reservado e quieto; algumas pessoas pensaram que talvez ele fosse um pouco autista. Ele falava com um estranho suspiro que algumas pessoas confundiram com um sotaque do Leste Europeu.25 Brin era o oposto. Ele era social e falador, e gostava de esportes. Quando seus colegas pensam no seu tempo em Stanford, eles se lembram de Brin andando de patins pelos corredores e constantemente passando pelos escritórios de seus professores para jogar conversa fora. Ao contrário de Page, Brin vinha realmente do leste europeu. Um grande interesse uniu os dois futuros bilionários: suas primeiras experiências com computadores e a Internet.

A família de Sergey Brin emigrou de Moscou para os Estados Unidos na década de 1970 e se integrou com muito sucesso ao mundo acadêmico de engenharia. Sua mãe, Eugenia, era uma cientista da NASA. Seu pai, Michael, era um professor titular de matemática na Universidade de Maryland.

Brin era um prodígio da matemática. Quando tinha nove anos, descobriu aquela Internet incipiente e passava seu tempo nas salas de chat e jogando jogos de fantasia medieval multiusuário, ou MUDs.26 Passou horas imerso nessa nova tecnologia de comunicação, acabando por irritar-se quando percebeu que estava cheia de pessoas como ele, “garotos de dez anos tentando falar sobre sexo”.27

Brin terminou o ensino médio em 1990, um ano antes do esperado, e se matriculou na Universidade de Maryland com especialização em matemática e ciências da computação. Ele se formou com honras em 1993 e mudou-se para Palo Alto para continuar seus estudos em Stanford com uma bolsa de pesquisa de pós-graduação da Fundação Nacional de Ciências.28 Em Stanford, interessou-se pela mineração de dados: construiu algoritmos de computador que poderiam prever o que as pessoas fariam com base em suas ações passadas. O que elas comprariam? Quais filmes elas se interessariam?29 Ele até fundou um grupo de estudantes chamado MIDAS: “Mining Data at Stanford”. Mais recentemente, a mineração comportamental de dados provaria ser o toque de Midas da Google. Mas isso estava bem além no futuro. Como Brin ficou entediado com o foco restrito de sua pesquisa de mineração de dados, decidiu se juntar a um novo projeto com seu amigo, Larry Page. “Conversei com muitos grupos de pesquisa, e esse foi o projeto mais empolgante, tanto por abordar a Web, que representa o conhecimento humano, quanto por gostar de Larry”, lembrou Brin numa entrevista.30

O principal problema da pesquisa era a relevância. Algumas páginas da web eram mais importantes e tinham mais autoridade do que outras, mas os primeiros mecanismos de pesquisa não sabiam identificar essa diferença. O ponto central, entendeu Page, era encontrar uma maneira de incorporar um sistema de classificação nos resultados da pesquisa. Era uma ideia simples, mas poderosa, baseada no mundo acadêmico, onde a importância de um trabalho de pesquisa era medida por quantas vezes ele havia sido citada por outros trabalhos de pesquisa. Um artigo citado mil vezes era considerado mais importante do que um artigo citado apenas dez vezes. Devido ao seu design com hiperlinks – com todas as páginas vinculadas a outras páginas -, a Internet era essencialmente uma máquina gigante de citações. Esta foi a inovação de Page. Ele chamou o projeto experimental resultante de “PageRank” e, com a ajuda de Brin, começou a costurar tudo.

Eles primeiro programaram um bot para rastrear toda a Internet, vasculhar seu conteúdo e salvar tudo em seu servidor em Stanford. Eles então refinaram o algoritmo PageRank para produzir resultados relevantes. Como links diferentes carregavam valores diferentes – um link de um jornal como o New York Times tinha muito mais autoridade do que um link da página pessoal de alguém – eles ajustaram seus cálculos para que as páginas fossem pontuadas pelo número de links e pela pontuação dos próprios links. No final, a classificação de qualquer página da web seria a soma total de todos os links e seus valores que apontam para ela. Depois que os valores de algumas páginas da web iniciais entraram no algoritmo PageRank, novas classificações propagaram-se recursivamente por toda a web. “Convertemos toda a web em uma grande equação com várias centenas de milhões de variáveis, que são as classificações de todas as páginas da web”, explicou Brin pouco depois de lançar o Google.31 Era um modelo matemático dinâmico da Internet. Se um valor fosse alterado, tudo teria que ser recomputado.32

Eles juntaram isso num mecanismo de pesquisa experimental chamado “BackRub” e o colocaram na rede interna de Stanford. O logotipo do BackRub era assustador: mostrava uma foto em preto e branco de uma mão presa a um braço peludo esfregando as costas nuas. Mas não importava. À medida que a notícia se espalhou, os alunos começaram a usá-lo – e ficaram surpresos. Esse projeto estudantil era melhor do que qualquer mecanismo de pesquisa comercial disponível na época, como Excite ou AltaVista. As empresas de busca dominantes foram avaliadas em bilhões de dólares, mas não entendiam seus próprios negócios. “Eles estavam olhando apenas para o texto e não considerando esse outro sinal”, disse Page.33

O mecanismo de busca, que rapidamente foi renomeado para Google, tornou-se tão popular que sobrecarregou a largura de banda da conexão de rede de Stanford. Brin e Page perceberam que tinham encontrado algo muito especial. O Google era muito maior que um projeto de pesquisa.

Mesmo no estágio inicial, eles percebiam que o algoritmo de busca do Google não era apenas matemática abstrata. Ele catalogou e analisou páginas da web, leu seu conteúdo, analisou links de saída e classificou as páginas por importância e relevância. Como as páginas da Web foram escritas e construídas por pessoas, os dois criadores do Google entenderam que seu sistema de indexação dependia essencialmente de um tipo de vigilância da Internet pública. “O processo pode parecer completamente automatizado, mas, em termos de quanta contribuição humana entra no produto final, há milhões de pessoas que passam o tempo projetando suas páginas da Web, determinando a quem vincular e como, e esse elemento humano faz parte do mecanismo, Disse Brin.34

Mas houve mais coisas envolvidas.

Brin ficou profundamente fascinado pela arte e ciência de extrair informações do comportamento das pessoas, a fim de prever suas ações futuras. Catalogar o conteúdo da Internet foi apenas o primeiro passo. O próximo foi entender a intenção da pessoa que pesquisava. Era adolescente? Um cientista da computação? Masculino, feminino ou trans? Onde moravam? Onde eles compraram? Se eles procuravam por “filhotes”, eram amantes da natureza ou fãs de beisebol? Quando digitaram “comprar roupas íntimas”, estavam interessados em calcinhas rendadas ou cuecas boxer? Quanto mais o Google soubesse de alguém, melhores seriam os resultados da pesquisa.

Enquanto Page e Brin trabalhavam para aperfeiçoar o algoritmo de relevância do Google, começaram a pensar em como personalizar os resultados da pesquisa para os interesses e hábitos de uma pessoa. Algumas de suas ideias iniciais foram rudimentares, incluindo a digitalização dos marcadores de navegador de uma pessoa ou a leitura do conteúdo de sua página inicial acadêmica, que geralmente listava interesses pessoais e também uma história acadêmica e profissional. “Esses mecanismos de busca podem economizar uma grande quantidade de dificuldades aos usuários, adivinhando eficientemente uma grande parte de seus interesses”, escreveram os dois no artigo original de 1998 que descrevia os métodos de busca do Google.35

Esta frase curta definiria a futura empresa. A coleta de dados e a criação de perfis de usuários tornaram-se uma obsessão para os dois. Isso os tornaria absurdamente ricos e transformaria o Google de um mero mecanismo de pesquisa em uma ampla plataforma global, projetada para capturar o máximo de informações possível sobre as pessoas que entrarem em contato com ela.

Garimpando o cérebro

Em 1998, Larry Page e Sergey Brin se mudaram para a garagem de uma casa de propriedade de Susan Wojcicki, irmã da futura esposa de Brin, Anne Wojcicki. Eles receberam um cheque inicial de US $ 100.000 de Andy Bechtolsheim, co-fundador da Sun Microsystems, uma poderosa empresa de computadores que havia saído de um programa de pesquisa em computação da década de 1970, financiado pela ARPA na Universidade de Stanford.36 O pequeno investimento inicial foi seguido por uma parcela de US $ 25 milhões de duas empresas poderosas de capital de risco, Sequoia Capital e Kleiner Perkins.37

Brin e Page não poderiam estar mais felizes. Cheios de dinheiro, os dois jovens empreendedores contrataram alguns de seus colegas da Iniciativa Biblioteca DIgital de Stanford e investiram sua energia para melhorar o mecanismo de pesquisa ainda rudimentar do Google.

Todas as primeiras empresas de mecanismos de pesquisa, do Lycos ao Yahoo!, do AltaVista à AOL, perceberam que estavam sentadas em algo novo e mágico. “As pessoas vinham aos nossos servidores e deixavam rastros. Todos os dias podíamos ver exatamente o que as pessoas achavam que era importante na Internet”, disse Tim Koogle, primeiro CEO do Yahoo.38 “A Internet tem tudo a ver com conexão.… Nós sentamos no meio, conectando pessoas.” Yahoo! tentou aproveitar esses dados para obter informações sobre a demanda dos consumidores, mas seus engenheiros mal arranharam a superfície dos dados valiosos que estavam acumulando. Os registros de pesquisa do Google não foram diferentes. O que separou a empresa das outras foi a sofisticação e agressividade que Page e Brin colocaram sobre a mineração e monetização do rastro de dados.

Inicialmente, a equipe do Google focou na mineração do comportamento do usuário para melhorar o mecanismo de pesquisa e adivinhar melhor a intenção dele. “Se as pessoas digitarem algo e depois mudarem sua consulta, você pode dizer que elas não estão felizes. Se elas forem para a próxima página de resultados, é um sinal de que não estão felizes. Você pode usar esses sinais de que alguém não está satisfeito com o que demos a elas para voltar e estudar esses casos e encontrar pontos para melhorar a pesquisa”, explicou um engenheiro da Google.39 Estudando os registros em busca de padrões, os engenheiros da Google transformaram o comportamento do usuário em um sistema de mão de obra gratuita de crowdsourcing. Ele agia como um loop de feedback que ensinava o mecanismo de busca a ser “mais inteligente”. Um recurso de verificação ortográfica de sugestão automática permitiu ao Google reconhecer peculiaridades menores, mas importantes, na maneira como as pessoas usavam o idioma para adivinhar o significado do que elas digitaram, em vez de apenas combinar texto com texto. “Hoje, se você digitar ‘Gandhi bio’, sabemos que ‘bio’ significa ‘biografia’. E se você digitar ‘guerra bio’, significa ‘biológica’”, explicou outro engenheiro da Google.

Steven Levy, um jornalista veterano da área de tecnologia, cuja carreira incluiu uma passagem pelo Catálogo de Softwares A Terra Toda de Stewart Brand na década de 1980, obteve acesso privilegiado sem precedentes para escrever a história da Google. O resultado foi In the Plex: Como o Google pensa, funciona e molda nossas vidas. Era uma história hagiográfica, mas altamente informativa, da ascensão da Google à posição dominante. O livro demonstra que Page e Brin entenderam desde o início que o sucesso do Google dependia de obter e manter controle proprietário sobre os dados comportamentais que eles capturavam por meio de seus serviços. Este foi o maior patrimônio da empresa. “Ao longo dos anos, o Google tornaria os dados em seus registros a chave para desenvolver seu mecanismo de busca”, escreveu Levy. “Ele também usaria esses dados em praticamente todos os outros produtos que a empresa desenvolveria. Não apenas anotava o comportamento do usuário em seus produtos lançados, mas também media esse comportamento em inúmeras experiências para testar novas ideias e várias melhorias. Quanto mais o sistema do Google aprendesse, mais novos sinais poderiam ser incorporados ao mecanismo de busca para determinar melhor a relevância.”40

Melhorar a usabilidade e a relevância do Google ajudou a torná-lo o mecanismo de pesquisa mais popular da Internet. No final de 1999, a empresa recebia em média sete milhões de buscas diárias, um aumento de aproximadamente 70.000% em relação ao ano anterior.41 Agora que o Google dominava o mercado, era hora de ganhar dinheiro. Não demorou muito tempo para a empresa descobrir como.

No ano 2000, logo após mudar para seu novo escritório expandido no número 2400 da Bayshore em Mountain View, ao lado do Centro Ames NASA e a uma curta distância do campus de Stanford, Page e Brin lançaram o primeiro gerador de dinheiro do Google. Chamava-se AdWords, um sistema de publicidade direcionada que permite ao Google exibir anúncios com base no conteúdo de uma consulta de pesquisa. Era simples, mas eficaz: um anunciante selecionava palavras-chave e, se essas palavras-chave aparecessem em uma sequência de pesquisa, o Google exibia o anúncio ao lado dos resultados da pesquisa e só seria pago se um usuário clicasse no link.

Os registros de pesquisa do Google foram vitais para o Google AdWords. A empresa descobriu que, quanto melhor conhecia a intenção e os interesses dos usuários quando pressionavam o botão de pesquisa, mais efetivamente a empresa podia alinhá-los com um anunciante relevante, aumentando assim a chance de os usuários clicarem em links de anúncios. O Google AdWords foi inicialmente rudimentar, correspondendo palavra-chave a palavra-chave. Nem sempre era possível adivinhar os interesses de uma pessoa com precisão, mas estava quase lá. Com o tempo, o Google melhorou em atingir a meta, resultando em anúncios mais relevantes, mais cliques e mais lucros para o Google. Multiplicado por centenas de milhões de pesquisas por dia, até um pequeno aumento na probabilidade de um usuário clicar em um link de publicidade aumentou drasticamente a receita da empresa. Nos anos seguintes, a Google sentiu fome de mais e mais dados para refinar a eficácia do programa de anúncios. “Os registros de busca eram dinheiro – recebíamos dos anunciantes com base nos dados desses registros”, explicou Douglas Edwards.42

De fato, o dinheiro começou a chover do céu. Em 2001, a Google contratou Sheryl Sandberg, ex-chefe de gabinete do secretário do Tesouro do presidente Bill Clinton, Larry Summers. Ela foi incumbida de desenvolver e administrar o lado dos negócios de publicidade e conseguiu superar as expectativas de todo mundo. Com um sistema direcionado baseado no comportamento do usuário, a receita de publicidade aumentou de US $ 70 milhões em 2001 para US $ 3,14 bilhões em 2004, a maior parte resultante da simples exibição do anúncio certo no momento certo e para os olhos certos.43 Era como uma nova forma de alquimia: a Google estava transformando fragmentos inúteis de dados em montanhas de ouro.44

Carne de menina assada

Enquanto os engenheiros da Google extraíam informações pessoais de milhões de usuários, os executivos temiam que a menor divulgação sobre essa operação pudesse causar um desastre fatal nas relações públicas da empresa. Pagae percebeu que a Google poderia potencialmente perder usuários se as pessoas entendessem como a empresa usava seus fluxos de pesquisa.45 Proteger esse segredo tornou-se uma política corporativa fundamental.46

Page estava incrivelmente paranoico sobre a possibilidade de vazamento de qualquer informação desse tipo. Por insistência dele, a política de privacidade da empresa foi mantida vaga e breve, lembrou Douglas Edwards no livro I’m Feeling Lucky. “A recusa de Larry em iniciar a discussão de privacidade com o público sempre me frustrou. Eu seguia convencido de que poderíamos começar com informações básicas e depois montar um centro de informações que fosse claro e direto sobre o que os usuários entregavam quando faziam suas consultas no Google ou em qualquer outro mecanismo de pesquisa”, escreveu. “Quem realmente se importava veria que estávamos sendo transparentes. Mesmo que não gostassem das nossas políticas de coleta ou retenção de dados, saberiam o quais eram. Se eles acabassem indo para outro buscador, estariam arriscando que as práticas de nossos concorrentes fossem muito piores que as nossas.”47

Mas Page não via as coisas dessa maneira.

O fundador queria total sigilo. Sua paranoia chegou a tal ponto que ele começou a se preocupar com uma tela de rolagem no lobby do escritório em Mountain View, na Google, que exibia pesquisas aleatórias do Google em todo o mundo em tempo real. “Os jornalistas que vinham à Google ficavam no lobby, hipnotizados por essa espiada na gestalt global e depois imaginavam coisas sobre o impacto internacional do Google e o aprofundamento do papel da pesquisa em todas as nossas vidas. Os visitantes ficavam tão fascinados que olhavam para a tela enquanto assinavam seus crachás temporários, sem se preocupar em ler os acordos restritivos de confidencialidade com os quais concordavam”, escreveu Edwards. “Larry nunca se importou com a tela de consultas do lobby. Ele monitorava constantemente as tendências da paranoia pública sobre abuso informacional, e as consultas que apareciam no lobby dispararam seu alarme. Page acreditava que o letreiro rolante dava aos visitantes muitas informações sobre o que sua empresa realmente estava fazendo.

Ironicamente, a Internet daquela época já proporcionava ao público uma visão rara e inadvertida do tipo de informações íntimas que os mecanismos de busca estavam armazenando em seus registros de pesquisa. Em agosto de 2006, a AOL, a gigante pré-histórica provedora de rede, lançou no domínio público alguns gigabytes de registros de pesquisa anônimos: 20 milhões de consultas feitas por 657.000 de seus clientes durante um período de três meses. Os resultados da pesquisa foram baseados no Google, que possuía 5% da AOL e administrava o mecanismo de pesquisa da empresa.48

Page viu esses registros como um ativo lucrativo, mas volátil, que ameaçava o negócio principal da empresa se viesse a se tornar público. Uma equipe de pesquisa da AOL pensou de maneira diferente: eles lançaram o lote de logs como uma boa ação em nome da promoção da pesquisa social. Para o público, foi uma boa ação. Mas para a AOL e, por extensão, à Google, os registros foram um fiasco de relações públicas, iluminando a intromissão maciça e sistêmica da privacidade na qual a economia de buscas se baseava.

Respondendo ao alvoroço, a AOL alegou que seus engenheiros haviam anonimizado os logs, substituindo as informações pessoais da conta de usuário por números aleatórios. Mas os jornalistas descobriram rapidamente que as identidades dos usuários poderiam ser facilmente modificadas com apenas meia dúzia de buscas. Um desses usuários – conhecido nos registros como “4417749” – foi facilmente desmascarado por dois repórteres ousados do New York Times como uma vovozinha da zona rural da Geórgia:

O nº 4417749 realizou centenas de buscas em um período de três meses sobre tópicos que vão de “dedos dormentes” a “60 homens solteiros” a “cães que urinam em tudo”. E, pesquisa por pesquisa, clique por clique, tornou-se mais fácil discernir a identidade do usuário da AOL nº 4417749. Há consultas para “paisagistas em Lilburn, Geórgia”, várias pessoas com o sobrenome Arnold e “casas vendidas no lago sombreado, subdivisão gwinnett, county georgia”. Não demorou muito tempo para investigar essa trilha de dados para Thelma Arnold, uma viúva de 62 anos moradora de Lilburn, Geórgia, que frequentemente pesquisa as doenças médicas de suas amigas e ama seus três cães.49

Os dados de log da AOL revelaram outra coisa. Muitas das consultas de pesquisa eram extremamente privadas, humilhantes, perturbadoras e possivelmente incriminatórias. Intercaladas em pesquisas sobre tópicos mundanos, como restaurantes, programas de televisão e resenhas de câmeras digitais, foram feitas buscas de doenças médicas e conselhos sobre o que fazer “na manhã seguinte ao estupro” e, em alguns casos, consultas que pareciam mostrar indivíduos instáveis à beira de fazer algo violento e perigoso. Para entender completamente a natureza pessoal das pesquisas agora públicas, eis uma amostra dos logs brutos:

Usuário 2281868
“Como destruir demônios que vivem no apto acima”
“O hip hop e o rap são uma forma de satanismo”
“Os negros são satanás ou demônios ou gremlins?”
“Sexo animal”
“Os negros têm visão de raio-x?”

Usuário 6416389
“Garotas engordadas para abate”
“Carne tenra e cozida de meninas”
“Cortando bifes de nádegas de meninas”
“Garotas estranguladas e comidas”
“Garotas cortadas em bifes”

Usuário 1879967
“Comer minha ejaculação e quanto tempo ela pode permanecer fresca”
“vivendo no limite”
“Eu uso meu esperma como creme pós-barbear”
“É insalubre armazenar semem ou esperma em um copo e beber em uma semana”
“Eu coloco esperma no rosto como perfume para atrair garotas”

Vasculhei os logs e um fluxo de pesquisa chamou minha atenção. Pertencia ao usuário 5342598 e apresentava várias consultas sobre um assassinato não resolvido de uma mulher em San Jose, seguidas de pesquisas de recursos que poderiam ajudar uma pessoa a determinar se ela era um serial killer. Aqui está uma amostra do fluxo:

Usuário 5342598
“Assassinatos não resolvidos em san jose”
“Tara marowski”
“Assassinato não resolvido de tara marowski”
“Tara marowski encontrada morta no carro”
“Tara encontrada morta no carro”
“Mistérios não resolvidos tara marowski”
“Departamentos de polícia de san jose casos frios”
“Teste psicológico dado aos prisioneiros”
“Teste para ver se você é um serial killer”

Essa pessoa matou alguém? Será que ela era um assassino em série? O outro pesquisador era canibal? O outro usuário realmente acreditava que os vizinhos eram demônios? Ou essas pessoas estavam apenas procurando coisas estranhas na Internet? É impossível dizer. Quanto às buscas por assassinato, eles eram um assunto para a polícia e, de fato, os registros de buscas se tornaram um componente cada vez mais importante das investigações criminais.

Uma coisa era certa após a AOL publicar os logs: os registros de pesquisa forneceram uma visão não adulterada dos detalhes da vida interior das pessoas, com toda a estranheza, peculiaridades embaraçosas e angústia pessoal que esses detalhes mostravam. E a Google possuía tudo isso.

Vale da Vigilância – Cap 5. Vigilância S.A. (1)

Capítulo 5
Vigilância S.A.

O mecanismo de busca perfeito seria como a mente de Deus.
– Emery Brin, no livro “O que vem a seguir para o Google”

Todo mundo nos EUA se lembra de onde estava na manhã de 11 de setembro de 2001, quando dois aviões derrubaram o World Trade Center.

Eu estava mudando meus pertences para uma sala no lado sul do campus da Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde acabava de me transferir de uma faculdade comunitária em San Mateo. Eu não tinha televisão ou computador, e espertofones não existiam. Para receber as notícias, via a CNN o dia todo com um amigo em uma pizzaria suja na Telegraph Avenue, mordiscando fatias frias, bebendo cerveja e geralmente me sentindo confuso e desamparado.

O cofundador da Google, Sergey Brin, também se lembra de onde estava no 11 de setembro. Mas, diferentemente da maioria de nós, ele tinha o poder de fazer alguma coisa. Algo que impactasse.

Naquela manhã, Brin entrou na sede da Google na Bayshore Avenue, em Mountain View. Ele silenciosamente convocou um pequeno grupo de seus engenheiros e gerentes mais confiáveis e encarregou-os de uma tarefa secreta: vasculhar os registros de pesquisa do Google por qualquer coisa que pudesse ajudar a descobrir a identidade das pessoas envolvidas no ataque daquela manhã.

“O Google é grande o suficiente, a essa altura, e é perfeitamente possível que os terroristas o tivessem usado para ajudar a planejar o ataque”, disse Brin ao grupo antiterror de mineração de dados reunido ao seu redor. “Podemos tentar identificá-los com base em conjuntos de consultas de pesquisa realizadas durante o período anterior aos sequestros”. Para começar, ele reuniu uma lista de possíveis termos de pesquisa, como “Boeing”, “capacidade de combustível”, “escola de aviação”.1 Se eles descobrissem várias palavras-chave relacionadas ao ataque vindas do mesmo computador, Brin instruiu-os a tentar fazer engenharia reversa na pesquisa para revelar a identidade do usuário e possivelmente interromper o próximo ataque.

O plano tinha uma boa chance de sucesso.

Três anos se passaram desde que Brin e seu parceiro, Larry Page, usaram US $ 25 milhões em capital de risco para transformar seu projeto de pós-graduação em Stanford em uma lucrativa empresa de pesquisa. A Google ainda não era a presença onipresente que é hoje, e seu nome ainda não era sinônimo de “pesquisa”. De fato, mal estava ganhando dinheiro. Mas a Google estava no caminho de se tornar o mecanismo de pesquisa mais popular do mundo e estava no topo de uma mina de ouro de dados comportamentais. A empresa processava 150 milhões de buscas todos os dias.2 Cada um desses registros continha uma consulta de pesquisa, o local de sua origem, a data e a hora em que foi inserido, o tipo de computador usado e o link do resultado da pesquisa no qual o usuário finalmente clicou. Tudo isso estava vinculado a um arquivo de “cookie” de rastreamento que o Google colocava em todos os computadores que usavam seus serviços.

Individualmente, essas consultas de pesquisa eram de valor limitado. Mas, coletivamente, quando exploradas por padrões de comportamento por longos períodos de tempo, elas poderiam pintar um retrato biográfico rico, incluindo detalhes sobre os interesses, trabalho, relacionamentos, hobbies, segredos, idiossincrasias, preferências sexuais, doenças médicas e visões políticas e religiosas de uma pessoa. Quanto mais uma pessoa digitasse na caixa de pesquisa do Google, mais refinada seria a imagem que apareceria. Multiplique isso por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, cada uma usando o site o dia todo, e você começará a ter uma ideia dos insondáveis estoques de dados à disposição da Google.

A riqueza das informações nos registros de pesquisa da Google surpreendeu e encantou os engenheiros obcecados por dados da empresa. Era como uma pesquisa contínua de interesses e preferências públicas, uma imagem do que as pessoas se preocupavam, cobiçavam e que tipo de gripe estava se espalhando em suas comunidades. “O Google pode ser um amplo sensor do comportamento humano”, foi como um funcionário da Google a descreveu.3

Os dados podem ser extremamente específicos, como um toque no cérebro, permitindo que a Google analise indivíduos com detalhes sem precedentes. As pessoas tratavam a caixa de pesquisa como um oráculo imparcial que aceitava perguntas, cuspia respostas e seguia em frente. Poucas perceberam que ele registrava tudo o que era escrito nele, desde detalhes sobre problemas de relacionamento até – esperava Brin – planos para futuros ataques terroristas.

A equipe de experts caçadores de terroristas que Brin reuniu naquela manhã sabia tudo sobre o tipo de informação contida nos registros de pesquisa; muitos deles passaram os últimos três anos construindo o que em breve se tornaria um negócio de publicidade direcionada de vários bilhões de dólares. Então eles foram procurar suspeitos.

“Em uma primeira execução, a equipe de registros encontrou cerca de cem mil consultas por dia que atendiam a alguns de seus critérios”, lembrou Douglas Edwards, primeiro diretor de marketing da Google, em suas memórias “Estou com sorte: as confissões dos funcionários do Google”59. Ele estava lá para a caçada e lembrou-se de que uma análise mais profunda dos registros se mostrou decepcionante. “A busca em nossos registros pelos terroristas do 11 de setembro não revelou nada de interessante. O mais próximo que chegamos foi de um cookie que procurara tanto pelo ‘World Trade Center’ quanto pelo ‘Egypt Air Hijack’. Se os terroristas usaram o Google para planejar seu ataque, eles o fizeram de uma maneira que não conseguimos descobrir.”4

Nunca ficou claro se Brin estava revistando os registros exclusivamente por sua própria iniciativa ou se era um pedido não divulgado do FBI ou de outra agência policial. Mas seu esforço de mineração de dados precedeu mais de um mês a assinatura da Lei Patriota pelo presidente George W. Bush, que daria à Agência Nacional de Segurança ampla autoridade para extrair e minerar dados de registros de pesquisa de maneira muito semelhante.

“Essa nova lei que assino hoje permitirá a vigilância de todas as comunicações usadas por terroristas, incluindo e-mails, Internet e telefones celulares. A partir de hoje, seremos capazes de enfrentar melhor os desafios tecnológicos impostos por essa proliferação das tecnologias de comunicações”, disse o presidente Bush em 26 de outubro de 2001, no dia em que assinou a lei. “O povo estadunidense precisa saber que estamos coletando muitas informações e estamos gastando muito tempo tentando reunir o máximo de inteligência possível, para perseguir todas as pistas, verificar todas as dicas para que nós possamos manter os EUA seguros. E isso está acontecendo.”5

Em um nível, a busca de Brin para encontrar terroristas era compreensível. Foi uma época aterrorizante. Os Estados Unidos foram dominados pelo medo de que mais ataques terroristas fossem iminentes. Mas, dada a fome do governo por informações – qualquer informação – sobre terroristas em potencial e seus cúmplices, o esforço teve uma dimensão perturbadora. Logo após o 11 de setembro, a CIA pegou dezenas de suspeitos de serem agentes da Al-Qaeda no Afeganistão e no Paquistão e os jogou na Baía de Guantánamo, em muitos casos agindo com informações de segunda mão pelas quais pagaram milhões de dólares. No final, 731 dos 780 detidos, mais de 90%, foram libertados sem serem acusados.6 Uma série de pesquisas como “Boeing”, “capacidade de combustível”, “escola de aviação” e “morte aos EUA” pode parecer incriminatória, mas dificilmente eram prova de cumplicidade em atos terroristas. Se um adolescente em Islamabad tivesse pesquisado esses termos no Google, e a empresa tivesse entregue essas informações ao governo, é possível que ele fosse jogado num saco preto no meio da noite e enviado a Guantánamo.

Mas o esforço vigilante de Brin foi eficaz? Quais foram os resultados?

Na verdade, não, e não muito. Para Douglas Edwards, que relatou essa história em suas memórias, o episódio serviu como uma anedota de advertência. Ele estava na empresa quase desde o início, mas apenas em 11 de setembro finalmente começou a compreender quanta energia a Google – e, por extensão, o restante do Vale do Silício – havia colocado em seus arquivos. “Não havia como evitar o fato de estarmos tentando filtrar usuários específicos com base em suas pesquisas. Se os encontrássemos, tentaríamos determinar suas informações pessoais a partir dos dados sobre eles em nossos registros”, escreveu Edwards. “Tínhamos os pensamentos mais íntimos das pessoas em nossos arquivos de registro e, em breve, as pessoas perceberiam isso”.7

Comecei a usar o Google em 2001, quando Sergey Brin iniciou sua caçada aos terroristas. Para mim, como para muitas pessoas que atingiram a maioridade no início dos anos 2000, a Google foi a primeira empresa de Internet em que realmente confiei. Não exigiu dinheiro meu dinheiro. Não me bombardeou com anúncios desagradáveis. Tinha um design limpo, com uma simples caixa de pesquisa centralizada em um fundo em branco. Funcionou como nada havia funcionado na Internet, ajudando você a navegar por um mundo novo, caótico e maravilhoso. Colocou bibliotecas inteiras na ponta dos dedos, permitiu que você traduzisse idiomas estrangeiros rapidamente, e colaborasse em tempo real com pessoas no outro lado do planeta. E você tinha tudo isso de graça. Parecia desafiar as leis da economia.

Mesmo quando se expandiu para uma corporação transnacional de bilhões de dólares, a Google conseguiu manter sua imagem de nerd inocente, com os dizeres “Não seja malvado”. Convenceu seus usuários de que tudo o que fazia era movido por um desejo de ajudar a humanidade. Essa é a história que você encontrará em quase todos os livros populares sobre a Google: uma história sobre dois nerds brilhantes de Stanford que transformaram um projeto de faculdade em um dínamo da Nova Economia. Uma empresa que incorporava todas as promessas utópicas do sociedade em rede: empoderamento, conhecimento, democracia. Por um tempo, pareceu verdade. Talvez este realmente tenha sido o começo de uma nova ordem mundial altamente conectada em rede, onde as antigas estruturas – os militares, as corporações, os governos – eram impotentes diante do poder nivelador da Internet. Como Louis Rossetto da Wired escreveu em 1995, “Tudo o que sabemos será diferente. Não apenas uma mudança de um presidente para outro, mas não saberemos sequer se haverá presidente algum.”8

Naquela época, qualquer pessoa que sugerisse que a Google fosse o arauto de um novo tipo de distopia, em vez de uma tecno-utopia, teria sido ridicularizada. Era praticamente impensável.

Biblioteca Digital

Lawrence Page era uma criança socialmente desajeitada, nascida e criada em torno de computadores. Em 1978, quando tinha cinco anos, seu pai, Carl, passou um ano trabalhando como pesquisador no Centro de Pesquisas de Ames, da NASA em Mountain View, Califórnia. O centro era um local da ARPANET que a Google arrendaria anos depois, ao expandir seu campus corporativo.9 A mãe de Page, Gloria, ensinava programação de computadores na Universidade Estadual de Michigan. Seu irmão mais velho, Carl Page Jr., foi um empreendedor pioneiro da Internet que fundou uma empresa de quadro de mensagens mais tarde comprada pela Yahoo! por quase meio bilhão de dólares.

Page cresceu escrevendo software.10 Quando tinha doze anos, leu uma biografia de Nikola Tesla, o brilhante inventor sérvio-estadunidense que havia desenvolvido tudo, desde motores elétricos, rádio e luzes fluorescentes a correntes alternadas, tudo antes de morrer na pobreza, sozinho e fora de si, enquanto escrevia cartas para um pombo que morava no peitoril da sua janela.11 Page devorou o livro, e Tesla permaneceu uma inspiração duradoura. Não apenas as invenções de Tesla obcecavam Page, mas também seu repetido fracasso em monetizar suas ideias. “Ele teve todos esses problemas para comercializar seu trabalho. É uma história triste. Percebi que Tesla era o maior inventor de todos, mas ele não conseguiu tanto quanto deveria”, disse Page ao jornalista John Battelle. “Percebi que queria inventar coisas, mas também queria mudar o mundo. Eu queria colocá-las lá fora, colocá-las nas mãos das pessoas para que elas pudessem usá-las, porque é isso que realmente importa.”12

Riqueza, fama, deixar uma marca no mundo – essas eram as coisas que o jovem Page fantasiava. A Universidade de Stanford, e um programa de pesquisa financiado pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa (anteriormente conhecida como ARPA), permitiriam que ele alcançasse seus sonhos.13

Stanford fica na beira da Baía de São Francisco, 85 quilômetros ao sul da cidade. Foi fundada por Leland Stanford, um magnata ferroviário local eleito como governador do estado e depois tornou-se senador.14 Quando a universidade abriu em 1891, o jornal Mail and Express de Nova York zombou do projeto, escrevendo: “a necessidade de outra universidade na Califórnia é tão grande quanto a de um asilo para os marinheiros da Suíça”.15 Mas a instituição e a área circundante floresceram em conjunto. No início do século XX, a Bay Area desenvolveu uma próspera indústria de rádio e eletrônica, emergindo como o centro da fabricação de tubos de vácuo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a área cresceu novamente, impulsionada pela necessidade de tecnologia de rádio e design avançado de tubo de vácuo para apoiar a tecnologia de radar militar. Após a guerra, a Universidade de Stanford tornou-se a resposta da Costa Oeste ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts, a universidade de elite de engenharia intimamente ligada ao complexo industrial militar dos EUA.16 A área em torno do campus era o epicentro do desenvolvimento de computadores e microprocessadores.

William Shockley era um químico do MIT e eugenista notório que fez seu nome como parte da equipe do Bell Labs que inventou o transistor de estado sólido. Em 1956, ele retornou à sua cidade natal, Palo Alto, para iniciar a Shockley Semiconductor dentro da universidade, no seu Parque Industrial Stanford.17 Sua empresa gerou várias outras empresas de microchip, incluindo a Intel, e deu o nome ao Vale do Silício. A Hewlett-Packard, a Eastman Kodak, a General Electric, a Xerox PARC e a Lockheed Martin também instalaram escritórios no Parque Industrial de Stanford na mesma época. Havia tanto trabalho militar em andamento no Vale do Silício que, durante a década de 1960, a Lockheed era o maior empregador da área da baía.

A ARPA também teve uma presença enorme no campus. O Instituto de Pesquisas de Stanford fez um trabalho de contrainsurgência e guerra química para a agência como parte do Projeto Agile de William Godel. Também abrigava o Augmentation Research Center, um laboratório da ARPANET administrado por Douglas Engelbart, que fazia testes com LSD. De fato, a ARPANET nasceu em Stanford.18

Nos anos 1990, a Universidade de Stanford não havia mudado muito. Ainda era o lar de pesquisas de ponta em computadores e redes e ainda estava inundada de dinheiro militar e de utopismo cibernético. Talvez a maior mudança tenha ocorrido nos subúrbios em torno da universidade – Mountain View, Cupertino, San Jose – que cresceu com investidores e empresas iniciantes na Internet: eBay, Yahoo! e Netscape. Stanford foi o epicentro do boom das pontocom da Bay Area quando o jovem Larry Page caiu de paraquedas no vórtice.

Page iniciou o programa de doutorado em ciência da computação em Stanford no outono de 1995. Ele estava em seu elemento e imediatamente começou a procurar um tópico de pesquisa digno de uma dissertação. Brincou com várias ideias, incluindo um carro autônomo, no qual a Google mais tarde investiria pesadamente. Eventualmente, ele optou pela pesquisa na Internet.19

Em meados dos anos 1990, a Internet estava crescendo exponencialmente. O cenário era caótico: uma confusão de sites aleatórios, páginas pessoais, sites de universidades, sites de notícias e de corporações. Páginas estavam aparecendo por todo o lugar. Mas não havia um bom diretório central ou com autoridade que pudesse ajudar as pessoas a navegar para onde queriam ir ou encontrar uma música, um artigo ou uma página da web específica. Motores de busca e portais de diretórios como Yahoo!, AltaVista e Excite eram brutos e, às vezes, precisavam ser selecionados manualmente. Os algoritmos de pesquisa eram extremamente primitivos, correspondendo pesquisas palavra por palavra sem a capacidade de encontrar os resultados mais relevantes. Apesar de sua tecnologia primitiva e resultados terríveis de pesquisa, esses primeiros sites de pesquisa atraíram enormes quantidades de tráfego e investimento. Os jovens programadores que os iniciaram ficaram absolutamente ricos.

No jargão do Vale do Silício, era um mercado propenso a reviravoltas. Encontrar uma maneira de melhorar os resultados da pesquisa não era apenas intelectualmente desafiador, mas também podia ser extremamente lucrativo.

Com o fantasma de Nikola Tesla pairando sobre si, Page abordou a questão com seu cérebro matemático. Os ajustes de Page foram encorajados por seu orientador de pós-graduação, Terry Winograd, pioneiro em inteligência artificial linguística que havia trabalhado na década de 1970 no Laboratório de Inteligência Artificial do MIT, uma parte do grande projeto da ARPANET. Na década de 1990, Winograd era responsável pelo projeto Bibliotecas Digitais de Stanford, um componente da Iniciativa Biblioteca Digital de vários milhões de dólares patrocinada por sete agências federais civis, militares e policiais, incluindo NASA, DARPA, FBI e a Fundação Nacional de Ciências.20

A Internet se transformou em um vasto e labiríntico ecossistema, abrangendo todos os tipos de redes de computadores e tipos de dados imagináveis: documentos, bancos de dados, fotografias, gravações sonoras, textos, programas executáveis, vídeos e mapas.21 O objetivo da Iniciativa Biblioteca Digital era encontrar uma maneira de organizar e indexar essa bagunça digital. Embora o projeto tivesse um amplo mandato civil, também estava ligado às necessidades das agências de inteligência e de aplicação da lei. Cada vez mais, a vida acontecia online. As pessoas estavam deixando rastros de informações digitais: diários, blogs, fóruns, fotografias pessoais, vídeos. As agências de inteligência e aplicação da lei queriam uma maneira melhor de acessar esse ativo valioso.