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Vale da Vigilância, Cap 1. Um novo tipo de guerra (1)

Seguindo a tradução do livro Vale da Vigilância, de Yasha Levine, comecei a “Parte I – A História Perdida”. Essa postagem contém os dois primeiros subcapítulos de “Um novo tipo de guerra”. Dividi este capítulo em 3 partes. Em breve publicarei as duas seguintes.


Capítulo 1
Um novo tipo de guerra

Nosso ódio pelos americanos é tão elevado quanto o céu.
– canção vietnamita do norte

Em 8 de junho de 1961, um oficial de inteligência militar chamado William Godel chegou a Saigon vindo de Washington, DC. Era um dia quente de verão quando ele desembarcou na capital do Vietnã do Sul, e Godel, sofrendo com o jetlag e gotejando de suor, visitou vários edifícios baixos, ao estilo de barracas militares, não muito longe do rio Saigon. Caminhou com dificuldade, com a perna manca de seus dias de guerra contra as forças japonesas no sul do Pacífico. Superficialmente, não havia nada de especial nessa excursão. Havia pouco para indicar que essas estruturas indefinidas, com suas paredes brancas e telhados inclinados, eram o centro do Projeto Agile, um programa ultrassecreto de contrainsurgência que desempenharia um papel importante na história da Guerra do Vietnã e na ascensão da tecnologia informática moderna.

De sua base no Pentágono, Godel pressionava por uma iniciativa como o Agile por mais de uma década. Agora, este projeto havia conseguido o apoio pessoal do presidente John F. Kennedy.1

Os primeiros resultados foram vistos em 10 de agosto de 1961, quando um helicóptero Sikorsky H-34, em forma de um enorme peixe de cauda larga, levantou-se preguiçosamente acima de Saigon e seguiu em direção às selvas impenetráveis de Kon Tum, na fronteira com o Laos e o Camboja.2 Uma vez que o piloto encontrou seu alvo, ele sinalizou, e a tripulação ligou um borrifador de colheita especial acoplado na parte de baixo da nave. Em um movimento de varredura lenta, eles pulverizaram a selva abaixo com uma mistura experimental de produtos químicos de desfolhação altamente tóxicos. Entre eles estava o infame Agente Laranja. Aqueles que cheiraram disseram que se assemelhava a perfume.

Os Estados Unidos ainda não estavam oficialmente em guerra no Vietnã. No entanto, durante vários anos, haviam canalizado dinheiro e armas para a região para ajudar os franceses a empreender uma guerra contra o Vietnã do Norte, o Estado revolucionário comunista liderado por Ho Chi Minh que estava lutando para reunificar o país e expulsar seus governantes coloniais.3 Naquele momento, quando a tripulação de Godel pulverizou as selvas, os Estados Unidos estavam aumentando seu apoio em dinheiro e armas. Milhares de “conselheiros” militares foram enviados ao Vietnã do Sul para apoiar o governo fantoche de Ngo Dinh Diem, na esperança de conter o que os estadunidenses viam como uma crescente onda global de comunismo.4

Não foi uma luta fácil nas sufocantes selvas da Indochina. A densa cobertura vegetal era um problema persistente. Mas isso era uma das maiores vantagens táticas dos rebeldes, permitindo que eles levassem pessoas e suprimentos através dos países vizinhos Laos e Camboja sem serem detectados, e lançassem ataques mortais em território sul-vietnamita. Com o Projeto Agile, Godel estava determinado a acabar com essa vantagem.

O Império Britânico foi pioneiro no uso de desfolhantes como uma forma de guerra química, usando-os contra movimentos locais que se opunham ao seu domínio colonial. Na luta contra os rebeldes comunistas na Malásia, a Grã-Bretanha empregou-os implacavelmente para destruir suprimentos de comida e a cobertura das florestas.5 Os planejadores militares britânicos descreveram os desfolhantes como “uma forma de sanção contra uma nação recalcitrante que seria mais rápida que o bloqueio e menos repugnante que a bomba atômica”.

Godel seguiu o exemplo. Sob o Projeto Agile, químicos de um laboratório secreto do exército dos EUA em Fort Detrick, Maryland, testaram e isolaram potenciais produtos químicos desfolhantes que poderiam consumir a densa cobertura de uma floresta. Estes foram levados para Saigon e testados em campo. Eles funcionaram com eficiência brutal. As folhas caíram várias semanas depois de serem pulverizadas, desnudando a cobertura vegetal. Uma segunda aplicação aumentou a eficácia e matou permanentemente muitas árvores. Bombardear a área ou incendiá-la com napalm também tornou a desfolhação mais ou menos permanente.6 Com o sucesso dos testes, Godel elaborou planos ambiciosos para cobrir metade do Vietnã do Sul com desfolhantes químicos.7 A ideia não era apenas destruir a cobertura de árvores, mas também destruir plantações de alimentos para assim submeter os vietnamitas do norte.8

O presidente do Vietnã do Sul, Diem, apoiou o plano. Em 30 de novembro de 1961, o presidente Kennedy autorizou-o. Graças a Godel e ao Projeto Agile, a Operação Ranch Hand foi lançada.

Ranch Hand começou em 1962 e durou até a guerra terminar mais de uma década depois. Naquela época, os aviões estadunidenses de transporte C-123 borrifaram uma área igual em tamanho à metade do Vietnã do Sul, com vinte milhões de galões de desfolhantes de produtos químicos tóxicos. O Agente Laranja foi fortificado com outras cores do arco-íris: Agente Branco, Agente Rosa, Agente Roxo, Agente Azul. Os produtos químicos, produzidos por empresas gringas como a Dow e a Monsanto, transformaram áreas inteiras de florestas exuberantes em paisagens áridas, causando a morte e o sofrimento horrível de centenas de milhares de pessoas.9

A Operação Ranch Hand foi impiedosa e claramente violou as Convenções de Genebra. Este continua sendo um dos episódios mais vergonhosos da Guerra do Vietnã. No entanto, o projeto de desfolhação é notável por mais do que apenas sua crueldade inimaginável. O órgão governamental liderado por ele era um órgão do Departamento de Defesa chamado Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (Advanced Research Projects Agency, ARPA) – mais conhecido hoje pelo nome ligeiramente reformulado de Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa (Defense Research Projects Agency, DARPA). Nascido em 1958 como um programa para proteger os Estados Unidos de uma ameaça nuclear soviética vinda do espaço, ela lançou várias iniciativas inovadoras encarregadas de desenvolver armas avançadas e tecnologias militares. Entre elas, o Projeto Agile e a Pesquisa de Comando e Controle, duas iniciativas sobrepostas da ARPA que criaram a Internet.

Os EUA tem um xilique

No final de 1957, os estadunidenses assistiram à União Soviética lançar o primeiro satélite artificial, o Sputnik 1. O satélite era minúsculo, mais ou menos do tamanho de uma bola de vôlei, mas foi colocado em órbita pegando carona em cima do primeiro míssil balístico intercontinental do mundo. Isso foi ao mesmo tempo uma demonstração e uma ameaça. Se a União Soviética podia colocar um satélite no espaço, poderia também mandar uma ogiva nuclear em qualquer ponto dos Estados Unidos.

O Sputnik caiu na política paranoica dos EUA como um meteoro gigante. Os políticos viram o evento como um sinal de fraqueza militar e tecnológica dos EUA, e as reportagens se concentraram na vitória soviética por ter chegado primeiro no espaço. Como poderiam os EUA ficar atrás dos comunistas em algo tão vital? Foi uma afronta ao senso de excepcionalismo dos gringos.10

O presidente Dwight Eisenhower foi atacado por dormir no volante. Generais e políticos criaram histórias horripilantes sobre a iminente conquista soviética da terra e do espaço e pressionaram por mais gastos com defesa.11 Até mesmo o vice-presidente Richard Nixon criticou Eisenhower em público, dizendo a líderes empresariais que a lacuna de tecnologia entre os EUA e a União Soviética era grande demais para que eles esperassem um corte de impostos. O país precisava do dinheiro das empresas para recuperar o atraso.12

Enquanto o público se recuperava dessa grande derrota na chamada Corrida Espacial, o presidente Eisenhower sabia que tinha que fazer algo grandioso e muito público para salvar sua imagem e aliviar os medos das pessoas. Neil McElroy, seu recém-nomeado secretário de defesa, tinha um plano.

Imaculadamente arrumado e com o cabelo perfeitamente penteado repartido ao meio, McElroy tinha a aparência e os modos de um alto executivo de publicidade. O que é, na verdade, o que ele era antes que Eisenhower o chamasse para dirigir o Departamento de Defesa. Em seu emprego anterior como presidente da Procter and Gamble, a assinatura inovativa de McElroy era financiar “novelas” – dramas teatrais diurnos feitos sob medida para as donas de casa – como veículos de puro marketing para vender a seleção de sabonetes e detergentes domésticos de sua empresa. Como a revista Time, que colocou McElroy na capa de sua edição de outubro de 1953, disse: “As novelas mandam mais mensagens publicitárias para o consumidor – e vendem mais sabão – simplesmente porque a dona de casa pode absorver as mensagens por horas a fio enquanto ela cuida de suas tarefas domésticas.”13

Nas semanas seguintes ao lançamento soviético do Sputnik, McElroy criou o projeto perfeito de relações-públicas para salvar o dia. Ele requisitou a criação da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada – ARPA – um novo corpo militar independente cujo objetivo era preencher a brecha espacial e garantir que uma derrota tecnológica embaraçosa como a do Sputnik nunca mais ocorresse.14 McElroy era um empresário que acreditava no poder dos negócios para resolver as coisas.15 Em novembro de 1957, ele apresentou a ARPA ao Congresso como uma organização que cortaria a burocracia governamental e criaria um veículo público-privado de pura ciência militar para impulsionar as fronteiras da tecnologia militar e desenvolver “vastos sistemas de armas do futuro”.16

A ideia por trás da ARPA era simples. Seria uma firma liderada por civis alojada dentro do Pentágono. Seria enxuta, com uma pequena equipe e um grande orçamento. Embora não construísse nem manejasse seus próprios laboratórios e instalações de pesquisa, funcionaria como um centro de gerenciamento executivo que descobriria o que precisava ser feito e então levaria o trabalho para universidades, institutos de pesquisa privados e terceirizadas militares.17

O plano atraiu a atenção do presidente Eisenhower, que desconfiava da disputa cínica pelo financiamento e poder de vários braços do exército – que ele acreditava ter inchado o orçamento e queimado dinheiro em projetos inúteis. A ideia de terceirizar pesquisa e desenvolvimento para o setor privado também atraía a comunidade empresarial.18 Os militares, por outro lado, não ficaram tão satisfeitos. A Força Aérea, a Marinha, o Exército e o Estado-Maior das Forças Armadas recuaram diante da ideia de que os civis estivessem sentados em cima deles e dizendo-lhes o que fazer. Eles temiam perder o controle sobre a aquisição de tecnologia, que era uma área de lucro e poder.

Os militares resistiram contra o plano de McElroy. O conflito entre eles foi tão grande que fez uma breve aparição no discurso anual de 1958 de Eisenhower: “Não estou tentando hoje fazer julgamentos sobre rivalidades daninhas entre serviços. Mas uma coisa é certa. Não importa quais sejam, os Estados Unidos quer que parem.”19 E ele conseguiu o que queria. Em 11 de fevereiro de 1958, um mês depois do discurso anual e apenas cinco meses após o lançamento do Sputnik, o Congresso escreveu a ARPA em um projeto de lei da Força Aérea dos Estados Unidos, concedendo US $ 520 milhões em financiamento inicial e um plano para um gigantesco orçamento de US $ 2 bilhões.20

McElroy escolheu Roy Johnson, executivo da General Electric, para dirigir a nova agência. Um relatório interno do Pentágono descreveu-o como um “indivíduo extremamente confiante, calmo e surpreendentemente bonito, que parecia em cada centímetro como um magnata da capa da revista Fortune”. Também observou que sua única preocupação em assumir o cargo era potencialmente perder uma lucrativa lacuna fiscal: “Johnson também era uma pessoa muito rica, deixando um emprego de US $ 158 mil para aceitar um cargo de US $ 18 mil na ARPA. Por razões fiscais, ele assumiu o cargo na ARPA com a condição de que pudesse estar fisicamente presente em Connecticut por um número mínimo de dias. Isso significava que ele geralmente saía de Washington na sexta-feira e retornava segunda ou terça. Frequentemente usava um avião particular. Proteger os EUA contra a União Soviética era importante. Mas uma pessoa tinha que se importar com seu imposto de renda.21

Nos primeiros anos de existência, a ARPA assumiu diversos projetos importantes. Tinha uma divisão espacial desenvolvendo mísseis balísticos. Trabalhou em satélites de espionagem e meteorologia, bem como em sistemas de localização por satélite, e preparou-se desde cedo para colocar um ser humano no espaço. Também ajudou a executar testes nucleares como a Operação Argus, que envolveu a detonação de várias pequenas bombas nucleares nas camadas superiores da atmosfera acima do Atlântico Sul em uma tentativa radical de criar um escudo invisível de partículas eletricamente carregadas que fritaria os componentes eletrônicos de qualquer ogiva nuclear que voasse através dele.22

Com todos esses projetos, parecia que a ARPA estava tendo um começo glorioso, mas a excitação não durou. As disputas internas no Pentágono e a criação de uma NASA desmilitarizada – a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço – sugaram dinheiro e prestígio da agência. Menos de um ano depois de ter sido criada, o orçamento da ARPA foi reduzido a apenas US $ 150 milhões – uma bagatela comparado ao orçamento de US $ 2 bilhões prometido.23 Nos anos seguintes, mudou três vezes de diretor e lutou para permanecer viva. Todos estavam convencidos de que a ARPA estava a caminho do túmulo.

No entanto, uma pessoa tinha um plano para salvá-la: William Godel.

Vale da Vigilância – Prólogo

Comecei a tradução do livro Vale da Vigilância, de Yasha Levine. Aos poucos, publicarei os capítulos aqui para quer quiser acompanhar a leitura e revisar. Lá na frente veremos como fazer umas cópias impressas.


Prólogo

Oakland, Califórnia.

Era 18 de fevereiro de 2014 e já estava escuro quando cruzei a Bay Bridge de San Francisco e estacionei meu carro no centro de Oakland. As ruas estavam desertas, a não ser por alguns moradores de rua amontoados na frente de uma loja fechada. Dois carros da polícia furaram o sinal vermelho com as sirenes ligadas.

Aproximei-me da prefeitura de Oakland a pé. Mesmo à distância, pude ver que algo incomum estava acontecendo. Uma fileira de carros de polícia estacionados descia pelo quarteirão, e âncoras de notícias e equipes de câmeras de TV correram em disparada, disputando posições. Um grande grupo de pessoas se amontoou perto da entrada, algumas montando o que parecia ser um rato gigante de papel machê, presumivelmente destinado a ser um símbolo para intromissão. Mas a ação de verdade estava acontecendo dentro. Várias centenas de pessoas lotaram a câmara ornamentada do conselho da cidade de Oakland. Muitas delas carregavam cartazes. Era uma multidão furiosa, e policiais flanqueavam os lados da sala, prontos para empurrar todo mundo para fora caso as coisas saíssem do controle.

A comoção estava ligada ao principal item da agenda da noite: o conselho da cidade estava programado para votar um ambicioso projeto de 11 milhões de dólares para a criação de um centro de vigilância policial em toda a cidade. Seu nome oficial era “Centro de Consciência do Domínio” – mas todos o chamavam de “DAC” (Domain Awareness Center). As especificações de design exigiam a conexão de imagens de vídeo em tempo real de milhares de câmeras em toda a cidade e sua canalização para um centro de controle unificado. A polícia poderia selecionar em um local e assisti-lo em tempo real ou voltar no tempo. Eles poderiam ativar sistemas de reconhecimento facial e rastreamento de veículos, conectar feeds de mídia social e melhorar sua visão com dados provenientes de outras agências para a execução da lei (law enforcement agencies) – locais e federais.1

Os planos para esse centro de vigilância vinham agitando a política da cidade há meses, e a indignação agora estava fazendo sentir sua presença. Moradores, líderes religiosos, ativistas trabalhistas, políticos aposentados, anarquistas mascarados do “bloco negro” e representantes da União Americana das Liberdades Civis – todos estavam presentes, ombro a ombro com um grupo de ativistas locais dedicados que se uniram para barrar o DAC. Um funcionário da cidade, nervoso e de óculos, vestindo um terno bege subiu ao pódio para tranquilizar a agitada multidão. Ele disse que o Centro de Consciência de Domínio foi projetado para protegê-los – e não espioná-los. “Este não é um centro que irá fundir diversas agências. Não temos acordos com a NSA, a CIA ou o FBI para acessar nossos bancos de dados”, disse ele.

O salão explodiu em pandemônio. A multidão não se deixava enrolar. As pessoas vaiavam e assobiavam. “Isso tudo é pra monitorar manifestantes”, alguém gritou da galeria. Um jovem, com o rosto coberto por uma máscara, foi até a frente da sala e, ameaçadoramente, enfiou o smartphone no rosto do oficial da cidade e tirou fotos. – Como você se sentiu? Como é ser vigiado o tempo todo?! ele gritou. Um homem de meia-idade – calvo, usando óculos e calças cáqui amarrotadas – subiu ao pódio e abriu espaço à força entre os líderes políticos da cidade. “Vocês, membros do conselho, acreditam que o Departamento de Polícia de Oakland, que tem uma história incomparável de violação dos direitos civis de seus cidadãos e que não consegue seguir suas próprias políticas, seja uma política de controle de multidões ou uma política de uso de câmeras corporais pelos policiais, pode de alguma forma ser confiável para usar o DAC?” E ele saiu gritando: “O único bom DAC é um DAC morto!” Aplausos selvagens irromperam.

Oakland é uma das cidades mais diversas do país. É também o lar de um departamento de polícia violento, que muitas vezes não responde pelos seus atos, e que opera sob supervisão federal há mais de uma década. O abuso policial vem ocorrendo em um cenário de crescente gentrificação, impulsionada pelo boom da Internet na região e pelo aumento nos preços dos imóveis que a acompanha. Em São Francisco, bairros como o Distrito da Missão, historicamente o lar de uma vibrante comunidade latina, transformaram-se em condomínios e lofts e em sofisticados pubs gastronômicos. Professores, artistas, adultos mais velhos, e qualquer outra pessoa que não tenha um salário de seis dígitos, estão tendo dificuldade em se sustentar. Oakland, que por um tempo foi poupada desse destino, agora estava sentindo a queda também. Mas os moradores locais não estavam caindo sem brigar. E muito da raiva deles estava focada no Vale do Silício.

As pessoas reunidas na prefeitura naquela noite viram o DAC de Oakland como uma extensão da gentrificação impulsionada pela tecnologia que estava empurrando os residentes de longa data mais pobres para fora da cidade. “Não somos estúpidos. Sabemos que o objetivo é monitorar os muçulmanos, as comunidades negras e pardas e quem se manifesta”, disse uma jovem usando um lenço de cabeça. “Este centro surge em um momento em que se está tentando desenvolver Oakland como uma comunidade de playgrounds e dormitórios para profissionais de São Francisco. Esses esforços exigem que se torne Oakland mais silenciosa, mais branca, menos assustadora e mais rica – e isso significa livrar-se de muçulmanos, negros e pardos, e manifestantes. Você sabe disso e as construtoras também. Estivemos nas suas reuniões. Estão assustados. Eles verbalmente admitem isso.

O argumento dela era importante. Poucos meses antes, dois jornalistas investigativos de Oakland haviam obtido um pacote de documentos internos de planejamento urbano relacionados ao DAC e descobriram que as autoridades da cidade pareciam estar mais interessadas em usar o centro de vigilância proposto para monitorar protestos políticos e atividades sindicais nas docas de Oakland do que para combater o crime.2

Houve outra agitação. Oakland havia inicialmente contratado o desenvolvimento do DAC da Science Applications International Corporation (SIAC), uma grande terceirizada militar sediada na Califórnia que faz tantos trabalhos para a Agência de Segurança Nacional (NSA) que é conhecida no ramo de inteligência como “NSA do Oeste”. A empresa também é uma grande contratada da CIA, envolvida em todo tipo de ações, desde monitoramento de funcionários da agência (como parte dos seus programas de “ameaça interna”) até a administração de sua frota de drones para assassinato. Vários moradores de Oakland vieram para impedir a decisão da cidade de fazer parceria com uma terceirizada que era parte integral do aparato militar e de inteligência dos EUA. “A SAIC fornece as telecomunicações para o programa de drones no Afeganistão, que matou mais de mil civis inocentes, incluindo crianças”, disse um homem de suéter preto. “E esta é a empresa que vocês escolheram?”

Olhei ao redor da sala com espanto. Este era o coração de uma área supostamente progressista da Baía de São Francisco, e a cidade planejava fazer parceria com uma poderosa empresa terceirizada de inteligência para construir um centro de vigilância policial que, se as reportagens estivessem corretas, as autoridades queriam espionar e monitorar os moradores locais. Algo fez a cena ainda mais estranha para mim naquela noite. Graças a uma dica de um ativista local, fiquei sabendo que Oakland estava conversando com a Google sobre uma a demonstração de produtos. Ao que tudo indica, aquilo era uma tentativa da empresa de conseguir uma parte do contrato do DAC.

A Google, possivelmente, ajudando Oakland a espionar seus moradores? Se fosse verdade, seria particularmente condenável. Muitos moradores de Oakland viram as empresas do Vale do Silício, como a Google, como os principais impulsionadores do aumento vertiginoso dos preços das moradias, da gentrificação e do policiamento agressivo que tornavam a vida miserável para os moradores pobres e de baixa renda. De fato, apenas algumas semanas antes, os manifestantes haviam formado um piquete na frente da casa de um rico gerente da Google que estava pessoalmente envolvido em um empreendimento imobiliário de luxo nas proximidades.

O nome da Google nunca apareceu durante a tumultuada reunião da prefeitura naquela noite, mas consegui ter acesso a uma breve troca de e-mails entre um “gerente estratégico de parcerias” da Google e um funcionário de Oakland que encabeçava o projeto DAC que sugeria que algo estava em andamento.3

Nas semanas após a reunião do conselho da cidade, tentei esclarecer essa relação. Que tipos de serviços a Google ofereceu ao centro de vigilância policial de Oakland? Até que ponto as negociações progrediram? Elas foram frutíferoa? Meus pedidos para a cidade de Oakland foram ignorados e a Google também não disse nada – tentar obter respostas da empresa era como falar com uma pedra gigante. Minha investigação estagnou ainda mais quando os residentes de Oakland conseguiram temporariamente que a cidade suspendesse seus planos para o DAC.

Embora o centro de vigilância da polícia de Oakland tenha sido suspenso, a questão permaneceu: como a Google, uma empresa obcecada com sua imagem progressista “Não seja malvado”, estava oferecendo um centro de vigilância policial controverso?

Na época, eu era repórter da Pando, uma pequena mas destemida revista de São Francisco que cobria a política e os negócios do Vale do Silício. Eu sabia que a Google fazia a maior parte de seu dinheiro por meio de um sofisticado sistema de publicidade segmentada que rastreava seus usuários e criava modelos preditivos de comportamento e interesses. A empresa teve um vislumbre das vidas de quase dois bilhões de pessoas que usaram suas plataformas – de e-mail, vídeo, e celulares – e realizou um tipo estranho de alquimia, transformando dados de pessoas em ouro: quase US $ 100 bilhões em receita anual e uma capitalização de mercado de US $ 600 bilhões; seus fundadores Larry Page e Sergey Brin tinham um patrimônio pessoal combinado estimado em US $ 90 bilhões.

A Google é uma das corporações mais ricas e poderosas do mundo, mas se apresenta como um dos mocinhos: uma empresa com a missão de tornar o mundo um lugar melhor e um baluarte contra governos corruptos e intrusivos em todo o mundo. E, no entanto, enquanto eu traçava a história e procurava os detalhes do contrato da Google com o governo, descobri que ela já era uma empresa militar em todos os sentidos, vendendo versões de sua tecnologia de mineração e análise de dados de consumo para departamentos de polícia, prefeituras, e quase todas as principais agências de inteligência e militares dos EUA. Ao longo dos anos, havia fornecido tecnologia de mapeamento usada pelo Exército dos EUA no Iraque, hospedado dados para a Agência Central de Inteligência, indexado os vastos bancos de dados de inteligência da Agência de Segurança Nacional, construído robôs militares, lançado um satélite espião em colaboração com o Pentágono e arrendado sua plataforma de computação em nuvem para ajudar os departamentos de polícia a prever crimes. E a Google não está sozinha. Da Amazon ao eBay e Facebook – a maioria das empresas de Internet que usamos todos os dias também se transformou em corporações poderosas que rastreiam e fazem o perfil de seus usuários enquanto buscam parcerias e relações de negócios com as principais agências militares e de inteligência dos EUA. Algumas partes dessas empresas estão tão completamente interligadas com os serviços de segurança dos EUA que é difícil dizer onde elas terminam e o governo dos EUA começa.

Desde o início da revolução do computador pessoal e da Internet nos anos 1990, nos disseram várias vezes que estamos no controle de uma tecnologia libertadora, uma ferramenta que descentraliza o poder, derruba burocracias entrincheiradas e traz mais democracia e igualdade ao mundo. Os computadores pessoais e as redes de informação deveriam ser a nova fronteira da liberdade – uma tecno-utopia em que estruturas autoritárias e repressivas perdiam seu poder e onde a criação de um mundo melhor ainda era possível. E tudo o que nós, internautas globais, precisávamos fazer para esse novo e melhor mundo florescer era sair do caminho e deixar as empresas de Internet inovarem e o mercado fazer sua mágica. Essa narrativa foi plantada profundamente no subconsciente coletivo de nossa cultura e detém uma poderosa influência sobre a maneira como vemos a Internet hoje.

Mas tire um tempo para olhar para os detalhes da Internet e a história se torna mais sombria, menos otimista. Se a Internet é realmente essa ruptura revolucionária com o passado, por que empresas como a Google dormem com policiais e espiões?

Tentei responder a essa pergunta aparentemente simples depois de visitar Oakland naquela noite em fevereiro. Mal sabia que isso me levaria a um mergulho profundo na história da Internet e, finalmente, a escrever este livro. Agora, depois de três anos de trabalho investigativo, entrevistas, viagens em dois continentes e incontáveis horas de correlação e pesquisa de registros históricos e desclassificados, sei a resposta.

Pegue qualquer história popular da Internet e você geralmente encontrará uma combinação de duas narrativas descrevendo de onde veio essa tecnologia de rede de computadores. A primeira narrativa é que surgiu da necessidade das forças armadas de ter uma rede de comunicação que pudesse sobreviver a uma explosão nuclear. Isso levou ao desenvolvimento da primeira Internet, a ARPANET, construída pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Pentágono (hoje conhecida como Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa, ou DARPA). A rede entrou em operação no final dos anos 1960 e apresentava um design descentralizado que podia encaminhar mensagens mesmo se partes da rede fossem destruídas por uma explosão nuclear. A segunda narrativa, que é a mais dominante, sustenta que, no início, não houve qualquer aplicação militar da Internet. Nesta versão, a ARPANET foi construída por jovens engenheiros de computação radicais e hackers brincalhões profundamente influenciados pela contracultura cheia de ácido da área da baía da São Francisco. Eles não se importavam nem um pouco com a guerra ou a vigilância ou qualquer coisa do tipo, mas sonhavam com utopias mediadas por computador que tornariam as forças armadas obsoletas. Eles construíram uma rede civil para trazer esse futuro à realidade, e é essa versão da ARPANET que cresceu na Internet que usamos hoje. Durante anos, houve um conflito entre essas interpretações históricas. Hoje em dia, a maioria das histórias oferece uma mistura das duas – reconhecendo a primeira, mas inclinando-se muito mais para a segunda.

Minha pesquisa revela uma terceira corrente histórica na criação da primeira Internet – uma vertente que praticamente desapareceu dos livros de história. Aqui, o ímpeto estava enraizado não tanto na necessidade de sobreviver a um ataque nuclear, mas nas obscuras artes militares da contrainsurgência e na luta dos Estados Unidos contra a aparente disseminação global do comunismo. Nos anos 1960, os Estados Unidos eram uma potência global que supervisionava um mundo cada vez mais volátil: conflitos e insurgências regionais contra governos aliados dos EUA, da América do Sul ao Sudeste Asiático e o Oriente Médio. Essas não eram guerras tradicionais que envolviam grandes exércitos, mas campanhas de guerrilha e rebeliões locais, frequentemente travadas em regiões onde os estadunidenses tinham pouca experiência anterior. Quem eram essas pessoas? Por que elas estavam se rebelando? O que poderia ser feito para detê-las? Nos círculos militares, acreditava-se que essas questões eram de vital importância para os esforços de pacificação dos Estados Unidos, e alguns argumentavam que a única maneira eficaz de respondê-las era desenvolver e impulsionar a tecnologia da informação auxiliada por computador.

A Internet surgiu desse esforço: uma tentativa de construir sistemas computacionais que pudessem coletar e compartilhar inteligência, observar o mundo em tempo real e estudar e analisar pessoas e movimentos políticos com o objetivo final de prever e prevenir a agitação social. Alguns até sonhavam em criar uma espécie de radar de alerta antecipado para as sociedades humanas: um sistema de computador em rede que observava as ameaças sociais e políticas e as interceptava da mesma maneira que o radar tradicional fazia com aeronaves hostis. Em outras palavras, a Internet foi programada para ser uma ferramenta de vigilância desde o início. Não importa para o que usamos a rede hoje – namoro, mapas, bate-papo criptografado, e-mail ou apenas ler as notícias -, ela sempre teve uma natureza de uso duplo enraizada na coleta de informações e na guerra.

Enquanto eu traçava essa história esquecida, descobri que não estava descobrindo algo novo, mas desvelando algo que era óbvio para muitas pessoas não faz muito tempo. A partir do início dos anos 1960, nos Estados Unidos, surgiu um grande receio quanto à proliferação de bases de dados computacionais e tecnologias de rede. As pessoas temiam que esses sistemas fossem usados por corporações e governos para vigilância e controle. Na verdade, a visão cultural dominante na época era que os computadores e a tecnologia de computação – incluindo a ARPANET, a rede de pesquisa militar que se tornaria a Internet que usamos hoje – eram ferramentas de repressão, não de libertação.

No decorrer de minha investigação, fiquei realmente chocado ao descobrir que, em 1969, o primeiro ano em que a ARPANET entrou em operação, um grupo de estudantes do MIT e de Harvard tentou fechar as pesquisas em suas universidades que estavam sob o guarda-chuva da ARPANET. Eles viam essa rede de computadores como o início de um sistema híbrido público-privado de vigilância e controle – o que eles chamavam de “manipulação computadorizada de pessoas” – e avisavam que ela seria usada para espionar os estadunidenses e travar guerra contra movimentos políticos progressistas. Eles entendiam essa tecnologia melhor do que nós hoje. Mais importante que isso, eles estavam certos. Em 1972, quase tão logo a ARPANET foi lançada em nível nacional, a rede foi usada para ajudar a CIA, a NSA e o Exército dos EUA a espionar dezenas de milhares de ativistas antiguerra e de direitos civis dentro do seu território. Foi um grande escândalo na época, e o papel da ARPANET foi amplamente discutido na televisão americana, incluindo na NBC Evening News.

Este episódio, ocorrido há quarenta e cinco anos, é uma parte vital do registro histórico, importante para quem quer entender a rede que hoje intermedia grande parte de nossas vidas. No entanto, você não vai encontrá-lo mencionado em qualquer livro ou documentário recente sobre as origens da Internet – pelo menos, não qualquer um que eu pude encontrar, e li e assisti quase todos eles.

O livro Vale da Vigilância é uma tentativa de recuperar parte dessa história perdida. Mas ele é mais do que isso. O livro começa no passado, remontando ao desenvolvimento do que hoje chamamos de Internet durante a Guerra do Vietnã. Mas rapidamente passa para o presente, olhando para o negócio de vigilância privada que alimenta boa parte do Vale do Silício. Esta investigação foca na sobreposição existente entre a Internet e o complexo industrial-militar que a disseminou meio século atrás e revela os laços estreitos que existem entre as agências de inteligência dos EUA e o movimento pela privacidade e antigoverno que surgiu na esteira dos vazamentos de Edward Snowden. O Vale da Vigilância mostra que pouco mudou ao longo dos anos: a Internet foi desenvolvida como uma arma e continua sendo uma arma hoje. Os interesses militares estadunidenses continuam a dominar todas as partes da rede, mesmo aquelas que supostamente estão em sua oposição.

Yasha Levine
Nova Iorque,
Dezembro de 2017

Princípios feministas para a Internet

Estes princípios foram traduzidos do site FeministInternet,onde estão acompanhados de contextualizações e textos complementares. Tem bastante coisa massa lá!


(Esta introdução for tirada da versão em espanhol que está no site GenderIT)

Documento em processo de construção

Em abril de 2014, a Associação para o Progresso das Comunicações (APC), organizou o Encontro global sobre gênero, sexualidade e internet em Port Dickison, Malasia. Reuniram-se ali 50 participantes de seis continentes, ativistas de gênero e direitos das mulheres, integrantes do movimento LGBTQI (lésbicas, gays, bissexuais, trans, queers e interssexuais), organizações defensoras dos direitos na internet e de tecnologia, e ativistas de direitos humanos. O objetivo da reunião foi fechar a brecha existente entre os movimentos feministas e aquelas pessoas que defendem os direitos na internet, além de observar as intersecções e oportunidades estratégicas para trabalhar em conjunto como aliadas e sócias.

O discurso existente entorno do gênero e da internet tende a centrar-se nos componentes de gênero ausentes das políticas que governam a internet, as violações resultantes e a necessidade de uma maior participação das mulheres nos fóruns de tomada de decisões. Com a finalidade de redefinir os limites deste diálogo, o Encontro global utilizou um processo colaborativo para levantar a pergunta: “como feministas, que tipo de internet queremos e o que é preciso para alcançá-la?”


1. Acesso

Uma internet feminista possui como objetivo trabalhar para empoderar mais mulheres e pessoas queer – em toda a sua diversidade -, lutando pelo desmantelamento do patriarcado. Isso implica o acesso universal, acessível, irrestrito e igualitário à internet.

2. Informação

Como feministas, nós defendemos e protegemos o acesso irrestrito à informação relevante para mulheres e pessoas queer, particularmente informações sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos, prazer, aborto seguro, acesso à justiça, e assuntos LGTBIQ. Isso inclui diversidade nas línguas, habilidades, interesses e contextos.

3. Uso

Mulheres e pessoas queer possuem o direito de programar, projetar, adaptar e usar de forma crítica e sustentável as tecnologias de informação, e reivindicar a tecnologia como uma plataforma para a criatividade e a expressão, assim como para desafiar as culturas sexistas e de discriminação em todos os espaços.

4. Resistência

A internet é um espaço onde as normas sociais são negociadas, performadas e impostas, frequentemente como um extensão de outros espaços moldados pelo patriarcado e a heteronormatividade. Nossa luta por uma internet feminista forma parte de um contínuo de nossa resistência em outros espaços, públicos, privados e entre eles.

5. Construção de movimentos

A internet é um espaço político de transformação. Ela facilita novas formas de cidadania que permitem as pessoas de reivindicar, construir e expressar sua individualidade, gêneros e sexualidades. Isso inclui conectar entre territórios, exigindo responsabilidade e transparência, e criando oportunidades para a construção sustentável do movimento feminista.

6. Governança

Como ativistas feministas, acreditamos na necessidade de questionar o poder patriarcal que atualmente controla a internet, e promover a participação de mais feministas e pessoas queer nas mesas de tomada de decisões. Acreditamos na democratização da legislação e da regulação da internet, além de promover uma internet como propriedade de todas e todos e cujo poder se distribua para as redes globais e locais.

7. Economia

O questionamento feminista da lógica do capitalismo neoliberal que governa a internet é fundamental para desestabilizar e desmantelar o poder econômico que quer se apropriar da internet, e criar alternativas a tal poder baseadas nos princípios dos interesses coletivos, a solidariedade e da abertura.

8. Código-fonte aberto

Como ativistas feministas, temos o compromisso político de criar e experimentar com a tecnologia, incluindo segurança digital, utilizando ferramentas e plataformas de código aberto. Para nossas práticas, é essencial promover, difundir e compartilhar conhecimento sobre o uso dessas ferramentas.

9. Amplificação

Como feministas, exigimos o poder da internet para amplificar as narrativas e as realidades vividas pelas mulheres. É preciso resistir ao estado, à direita religiosa e a outras forças extremistas que monopolizam os discursos sobre a moralidade, ao mesmo tempo que silenciam as vozes feministas e perseguem mulheres defensoras de direitos humanos.

10. Expressão

Defendemos o direito à expressão sexual como uma questão de liberdade de expressão não menos importante que a expressão política ou religiosa. Nos opomos fortemente aos esforços do Estado e de atores não estatais de controlar, vigiar, regular e restringir a expressão feminista e queer na internet através da tecnologia, legislação ou violência. Reconhecemos isso como parte de um projeto político maior de policiamento moral, censura e hierarquização de cidadanias e direitos.

11. Pornografia

Reconhecemos que a questão da pornografia online tem a ver com agência, consentimento, poder e trabalho. Rejeitamos relações simplistas feitas entre consumo de pornografia e violência contra as mulheres. Também rejeitamos o uso do termo guarda-chuva “conteúdo prejudicial” para categorizar expressões sobre sexualidade feminina e transgênero. Apoiamos a reivindicação e a criação de conteúdo erótico alternativo que resista ao olhar patriarcal dominante e que coloque o desejo das mulheres e pessoas queer no centro.

12. Consentimento

Enfatizamos a necessidade de construir uma ética e uma política de consentimento nas culturas, projetos, políticas e termos de serviço das plataformas da internet. O poder de atuação das mulheres está na sua habilidade de tomar decisões informadas sobre quais aspectos da sua vida pública ou privada será compartilhado online.

13. Privacidade e dados

Defendemos o direito à privacidade e ao controle total sobre os dados e informações pessoais em todos os níveis. Rejeitamos práticas realizadas pelo Estado e por companhias privadas que usam dados para lucrar e manipular comportamentos online. A vigilância é uma ferramenta histórica do patriarcado, usada para controlar e restringir os corpos, discursos e ativismos das mulheres. Dedicamos igual atenção para as práticas de vigilância feitas por indivíduos, pelo setor privado, pelo Estado e por atores não estatais.

14. Memória

Temos o direito de exercer e manter controle sobre nossa história e memória pessoais na internet. Isso inclui ser capaz de acessar todos os nossos dados e informações pessoas online, e ser capaz de exercer controle sobre esses dados, incluindo saber quem tem acesso a eles e sob quais condições, e ter a habilidade de deletá-los para sempre.

15. Anonimato

Defendemos o direito de sermos anônimas e de rejeitar todas as vontades de restringir o anonimato online. O anonimato permite nossa liberdade de expressão online, particularmente quando estamos quebrando tabus em assuntos como sexualidade e heteronormatividade, experimentando com identidade de gênero, e promovendo segurança para mulheres e pessoas queer sujeitas à discriminação.

16. Crianças

Enfatizamos a inclusão das vozes e experiências das pessoas jovens nas decisões tomadas sobre segurança online e que promovam sua segurança e acesso à informação. Reconhecemos os direitos da criança à saúde emocional e desenvolvimento sexual, que incluem o direito à privacidade e acesso positivo a informações sobre sexo, gênero e sexualidade nos momentos críticos de suas vidas.

17. Violência

Chamamos todos os investidores, usuários, criadores de políticas e o setor privado da internet para tratar da questão do assédio online e da violência relacionada à tecnologia. Os ataques, ameaças, intimidação e policiamento experienciado por mulheres e pessoas queer são reais, danosos e alarmantes. Eles são parte de uma questão mais ampla de violência de gênero. É nossa responsabilidade coletiva de lidar e acabar com isso.